terça-feira

réplica ao apelo do oboé
















  


 "Recital (oboé vermelho)", William Alexander


do naipe das madeiras
vinha dele a mais
delicada melancolia

e talvez por ser d'amore
sua era a voz mais impressiva
pois que plenilúnios sugeria

ou me levava a cais longínquos
tornando amainada
qualquer dor por existir

e nem do rouxinol o canto
ou o soar da mais bela lira
em emoção poderia traduzir
o fraseado que eu ouvira


segunda-feira

strings dance

da orquestra de cordas
esqueçam o rigor regente
quem spalla ou os que
o seguem também
ou o articular da mais
mozartiana melodia

atentem para o que
a pauta não previa
de cellos, violas, violinos
o gestual compassado
o ballet dos arcos em
incidental coreografia

domingo

premissas de lobo do mar

bastou aportar um verso
do viés daquele olhar
para que dizer se pudesse
que voltaram do exílio
as palavras
e que a poesia alcançara
seu cais enfim
já não mais soçobrada
a emoção

não importa quantos
foram os oceanos
mas adeus sim dar
à dor corsária
fazer do amor mais
do que continente
e que dancem verbos
veleiros e gaivotas
cada qual em seu azul chão




sábado

sinopse diminuta para Clarice


fonte: oglobo.globo.com

entretecendo e semeando
enigmas e silêncios
essa ucranialma dispôs
palavras & estrelas
entalhando um evangelho díspar
lispectro solaris
breviário de abstratégias
onde tudo solfeja
entre o sutil e o abissal

Vincent réquiem

nimbos em borrão
contrapõem céu e terra
rugem azuis presságios
de tormenta
turbulento é o ouro
dos trigais

dilacera a tela
uma estrada rumo ao nada
cairão cromatismos em
abismos
girassóis e ciprestes
nunca e não mais

corvos fugidios
não esperam a tempestade
está por um fio a vida
da alma insana
cuja obra semeia
eternidade



Paul en Arlequin

collerette e punhos
de branco tule
geometrais losangos
em azul e amarelo
alternar
em Arlequin
de chapéu bicorne
le petit Paul
pose faz na cadeira
de alto espaldar



collection automne hiver


"Rio do outono", Nikolai Vasiolievich Kharitonov

uma questão de semanas
do inverno a chegada
idos dias e folhas
do calendário
cumprirá o outono
seu papel

não que esteja eu
à espera do solstício
alheio que vou
às estações
embora olhe ainda
da floração os volteios
ou o périplo das luzes

apenas constato
na solidão
o naufrágio dos meses
a sucessão dos anos
do tempo o tropel
que não me deixou amores
que se assinalou
cruel em mim

another twilight

por testemunha eu
e o das aves team
ninguém mais ou
tão-somente
sobre blues montains
e cumes de telhados
o sol crepusculava

o gado silente
pastagens, cursos d'água
arbóreas silhuetas
o lamento brônzeo
da hora da Ave-Maria
nada da mira de Midas
escapara
pois pelo astro-rei
em ouro tudo se tornava

quinta-feira

o ouro que havia nos manuscritos











 

 

vazaram a paisagem
os olhos meu
mas já partira de muito
a primavera
no encalço seu
de ambas tão célere
andadura
que não se permitido
o vocábulo adeus

agora é outra a procura
já que perdida da poesia
o que nela era iluminura

sobre a não perenidade da paixão

idiossincrasia da floração:
amores perfeitos não
duram para sempre

domingo

de ares, lugares

aponta o caminho
das asas
orquestra das ondas
a superfície
remodela paisagens
e na semeadura do pólen
faz o traslado
do que é fecundo


acessa os ermos
do mundo
tecendo sem ter fio
sendo vórtice ou
mero assovio
e de tudo que compraz
o vento
concede ainda Éolo
à flor o movimento


alguns dos sopros que
chegam agora em mim
seriam a alma do flautim?



sem simulacros, reis ou rainhas

da poesia não faço
um tabuleiro
um mover palavras
como um enxadrista
pois dos versos
cátedra não tenho

falo apenas de
sóis e desencantos
de asas sem rumo
do gris das nuvens
de barcos sem portos
do matiz das estações
que silenciam

nas entrelinhas vai
um pouco do nada que sou
do que calo em solidão
não há uma estratégia
para o que palavra é
para o que é coração

sábado

luminescena

vem a calhar
esta luna amarilla
que não passa em branco
nem aos que náufragos
como eu
outrossim que a olhos
expectantes

em sertões seja
cidades ou nalgum cais
a beleza aporta
a noite aclara
como se fora dia
e no oceano sideral
a órbita llena faz
o coração alhear-se
do quanto silencia

domingo

entre um verão e outro inverno

já é começado o outono
diz em silêncio
a natureza em transição
e em meio ao amarelado
das folhas em queda
sigo em penitente solidão


sol, zênite, equador
nenhum deles sabe
quanta é a minha dor
nem que faço versos
que ninguém vê
ninguém viu
enquanto tramitam
os dias de abril

sobre as padronagens da luz

tem a natureza
seu tear
digo-o vendo o sol
na linha do horizonte
enredado
tramando novo
o velho fim do dia
pois que é da tarde
tecelã
o belo ocaso que
ora se fia

o constraste que vem pela janela

eu diria uma
florboleta
tal das asas
o irisado
que a pétalas
se assemelham


pois assim a vejo
nessa caleidoscópica
trajetória
que desbanca um dia
em branco e preto


e em meio à minha
sarabanda
ela voa minueto

Zéfiro, Cartola & afins


"O moinho de La Gallete", Vincent van Gogh

há dias em que
passa ao largo
qualquer alento
como que cessado
da vida o sopro
ou findo o giro
o instante do
catavento


dias há em que
a existência é moenda
a felicidade lenda
e a dor que atmosfere
o próprio ar
em movimento

sexta-feira

onomelopéia

um verdestrídulo
sem fim naquele jardim:
volta e meia cricrilardeia
falaz um griloquaz

vooleta

na florescência ela voa
beleza eterna num
mero ínterim
ontem larva hoje assim
conquistando o
éter, o azul
pólen propagando
de norte a sul

resvalando pétalas
no pós metamorfases
borboletrajando asas
amarelilases

De La Mancha


"Campo de tulipas na Holanda", Claude Monet


buscando dulcimeras
cavalgalopo em tresvazios
quixoteimo pela vida

ostento o gume
da palavra
que se me afigura
armadúbia e lança

mas mesmo surrado
e zombalido
avento ainda
meus moinhos

tarde alquímica


"Por do sol: campos de trigo próximos de Arles", Vincent van Gogh

transmuta o sol
em ouro
os campos de trigo
onde de ordinário
se obtém o pão

que se aprumem
então as bateias:
ondulam riquezas
se durante (a tarde)
a brisa vagueia

centemeyer


Oscar Niemeyer (foto: autor ignorado)

arcos, vãos
o concreto em duna
comuna, é dele
o traço
que inventa a
arquitecurva

pilar, Oscar é
a mestra viga
do que monumentaliza:
nele a beleza se
sustenta e bisa

quarta-feira

ainda sobre versos




Rimbaud mercante
Lorca na mira de fuzis
Pessoa em múltipla solidão
são almas adormecidas
das quais me fiz amigo
embora bem o saiba
que letras não se tornam trigo
delas nem sempre se faz o pão

este oceano de palavras até
me ilude com seus rompantes
mas não penso ter o sol nas mãos
não será téssera minha poesia
para adentrar a eternidade
ou ainda alguma academia

na mesma cinematecla

olhos de cineasta
pelos flancos da tarde
transformo em documentário
os roteiros do sol

desnecessários os diálogos
basta do ocaso um close-up
para o sucesso avant première
tal o mise-en-scène da luz

a hora certa

é mister saber o tempo
do casulo e do acasalar
sendo lagarta rastejar
e se já borboleta o sobrevôo
a vida é metamorfose
e escolher a cada um cabe
deixar ou não o chão

sobre os cemitérios de João Cabral


"Cemitério de los Angeles - Chile", Gonzalo Cárcamo

de João por cabal discordo
quando torna em tema
a última gleba de chão
onde arcabouços ósseos
inertes adormecem

pois que importam os túmulos
qual marmóreos calabouços
e suas sobrepostas estatuárias
ou simples e caiadas cruzes por
episódicas guirlandas adornadas?

quando muito me permito
para as covas esta alusão:
são portos para os mortos
onde em naufrágio terminante
vai a vida atracar

no chão de uma cidade do interior


"Paisagem de subúrbio", Di Cavalcanti

minha paisagem
não tem álamos
que estrelas possam
os coroar
nem mesmo pode agreste
se denominar

minha paisagem é
tão somente urbana
e sem estilo sua arquitetura
tosca conjuntura de concreto
onde o abstrato parece
nenhures habitar

um cenário longe do mar
sem nada que se assemelhe
a um esboço de Niemeyer
ou algum traço de Gaudi
e luzeiro nenhum rutila aqui

deleatur

consuma o fogo
as palavras que grafei
para que não perdure a esmo
a dor que me envenena

para que não lancem os olhos
em meus versos brancos
pois que bem mais cores tem
a flor da açucena

nem solar nem eólica


"Luminar do céu noturno de outono", Jan Blencowe

no céu há muito se instalara
da noite a fuligem
no nada urbano cenário
e da lua não se sabe não

se não é o mote a escuridão
que se acendam pirilâmpadas
e voem então os vagaluzes

Vermessungstechniker


"Nu reclinado", Amedeo Modigliani

sua geografia assim a contemplo
com olhar cartográfico
num atlas dispondo
recônditos mapeados
relevos traduzidos
e sem das vestes o artifício
natural que sua pele revele
para o amor o feudo propício:
nada de altiplanos, escarpas
mas sim colinas, alvas dunas
vale, alfombra e ravina
onde tudo culmina

a vertigem das folhas e das indagações

como folhas em queda
despertam estrelas
em frestas do céu
de alhures
da estação se vêem
ares outonais

não resta da tarde
um laivo de luz
perdidos amores
não voltam mais
nem trará o tempo
primavera outra
mesmo que tardia

pergunta a esfinge
que me apavora:
razão ainda haverá
para alguma poesia?

veredictum


"A casa branca à noite", Vincent van Gogh

tantos outonos olhando
o glossário da noite
os enigmas de incontáveis
constelações
mas nenhuma estrela
ao alcance da mão

melhor deixar intactas
as palavras
desdém fingir ante
os atavios das luzes
seguir então a sina
de rezar silêncios
no rés do chão