domingo

Graciliano

em tuas linhas
nunca tortas
mais que o agreste
ou a odisséia no sertão
teus cenários são
a humana condição

que está na ambição
pela terra
no cárcere da seca
no semear da fome
no desterro nordestino
na aridez da existência
palmilhada sob o sol a pino

neste de letras panorama
áspero e despojado
qual a caatinga
ainda a beleza vinga
seja numa cadela magrela
em celas da ditadura ou
na agrura por um periquito

e em meio às ossadas
angústias e seres
beirando o precipício
lapidar palavras
foi o teu ofício

terça-feira

como se fora Stradivarius

nobre madeira
a da poesia
que merecedora se faz
do entalhe preciso
de quem cumpre
ser artesão

uma vez luthier
entre palavras
mais que cravelhas
ou cordas
a ela dou o timbre
que melhor traduz
emoção

bípede e trôpego

por asas não ter
dos flamingos invejo
o vôo transversal e rosa
ou dos albatrozes
os oceânicos traslados
eu que quase nada
posso ser

eu que não posso voar
nem como alva ou gris gaivota
em costeira existência
longe das magnas águas
de alto mar

conquanto que semeadura

versos estes que
me tomam aos pares
ora episódicos senão
quando bissextos
não os semeio para
a eternidade
a esmo atiro-os
entre céus e o chão

deixo ao critério do
vento espargi-los
ou mesmo que não
e que germinem em
primaveras outras
ou adormeçam sem
prazo de colheita
em qualquer estação

sem falar das madressilvas

vermelho amarilis
açaflor lilás
coroloura de calêndulas
anil e branco manacá

assim a natureza
a cor portiflora
olhos levando
em vôo vejaflor

funâmbulo na linha do Equador

a inspiração vem
a galopégaso
ou parte sem preâmbulos
incerto é seu tempo
de ir ou de chegar

uma arte o versejar
equilibrar palavras no
gume da navalha
conquanto sejam
elas fugidias
mesmo estando na
palma da mão

music box

têm surpresas
as caixas de música
em sua mecânica e
precisão
que o digam dedos
e corda
após em calculada
e maquinal luta
esgrimir:
quando não berceuse
uma chacona que se
soma à bailarina
no espelho a refletir

homem ao mar

é o poeta a ostra
sem o nácar iridescente
transmutando a dor
em pérola reluzente

segunda-feira

Vulcano hodierno

bigorna, martelo
frágua e fole
golpeio frases como
cabe a quem
se pretende um artesão

a poesia, forjo-a
em silêncio
quando a palavra incandesce
e abrasa a emoção

pescando com Tarsila

o horizonte em serra
litorâneos verdes e anis
ovaladas copas, casas sem
arquitetônica ousadia
e com a sétupla altivez coqueira
contrasta una a bananeira

pelo exercício do ofício
vem ao pescador
enredada a recompensa
e no reinado de Netuno
do peixe configura-se a captura
após azul espreita