domingo

entre cirros, gigas e allemandes

como que tirados
de um alaúde
versos quero
repletos de música
meu coração barroco
neles estampado

mais o vento, seus
bemóis
para adiante levá-los
entre mosaicos
de nuvens
pouco mais que
além disso

mesmo que o sol
se esquive
ou o azul se
faça omisso

de sul a norte o caminho se perfaz

sem delongas ou adeus
disperso-as assim
palavras, gelosia afora
ainda que na invernada
périplo pelos campos
para encetar a jornada
elas que são do
coração meu os ais

depois que singrem no vento
em silente permuta
e venham a mim novos
pontos cardeais

quinta-feira

pelo fogo acorrentado

não vou afogar
num etílico oceano
o repisar da sina
de amores malogrados
posto que à paixão
intrínsecos são
o cambalear, a queda
o permanecer alucinado
a dor que destila

então eu, Prometeu atormentado
destarte salvo o fígado
mas pela eternidade fica
o coração dilacerado

domingo

antes que se apague

contemplo seu átimo
que é (e me) chama
funâmbulo o lume
na ponta do pavio
qual inflada vela em
cume de navio

ímpeto ígneo
que oscila e remonta
a destinos do vento
é como o existir
em cada momento, rito

e nada tira a beleza
mesmo do que de antemão
sabemos finito

terça-feira

almost invisible

cerúleo julho
eu sem palavras
seguia em solidão
de eterno entreato

e só uma ave
impedia-me o mais
cabal anonimato

cantando sem legato
que bem me via
não obstante ausente
toda a poesia

segunda-feira



rio de palavras, choro

entre pedras e vida
derramo esse rio
poesia essa que deságua
com acréscimos do estio

derradeira foz é o papel
para minha voz
que sobrevém corredeira
em seu avanço de
nunca remanso

ainda que a emoção inverne
se interponha a dor
em meu curso
ou o coração se afiance
outonal
caudal é meu estilo

quinta-feira

rumo ao sol do sul

vão elas tão belas
as aves peregrinas
em sua orquestral formação
que talvez pássaros não sejam
mas anjos sim
e se de seis asas
serão serafins



quarta-feira

romântica (joycíclica)

a plenilua já foi
minguanova
e quartocrescheia

domingo

flights and beehives

proletária ela
zumbelha
entre o que verdeja
asas em faina
de pouso e voar
amarelambendo a flor
insinuando vislumbres
de favo e mel

mesmo que não caudal

de Pessoa não invejo o Tejo
pois, arcanos ciclos da natureza
as lusitanas águas onde
singravam os olhos dele
aqui ribeirinhas foram um dia

e não importa se inverno
outono, primavera ou estio
ora dormente, ora enchente
é o Mandu nosso eterno rio