terça-feira

mesmo que a ela faltassem as flores


"Vairumati", Paul Gauguin


alude a Gauguin
sua pele como que
matizada pelo sol
que ondula em
mares do sul
olhos e cabelos de
imensidão não e
nunca constelada

taitiana em Minas
este seu rastro de
trópico e paraíso
paira acima de toda
possível cor cotidiana
beleza assim outorgada
alegoria e felicidade
primitivas em mim

domingo

eu, Cervantes e os moinhos de vento


"Dom Quixote", Álvaro Reja

resulta em nada atrelar
a chuva aos campos
se o sol em clave se
esgueira à Mantiqueira
incidentais à tarde sim
são as rebeladas asas
como o flautim que faz
estirar a serpente

assim o vento que
acomete moinhos
nada sabe, inocente
de vãs fantasias:
nenhum desdém a
quem canta este mote
se assim tão quixote
ninguém tanto
quanto eu

nem uma cor sequer


"Rimbaud", Pablo Picasso

no que esboço meu
lápis, pena e não palheta
a tristeza me lograra
nem mar ou terra
por morada

então ao sol em seu
sobe e desce escada
pergunto à custa de
quanto guache e água
o azul se perfazia

eu que hoje inexorável
à têmpera de setembro
ou à própria poesia

o gris riscando em mim
tudo que não grafado
em tom nanquim

sábado

ainda da safra que se perdera


"Pier Itágua", Carlos Herglotz

se bem pouco me dizem
a estrela quando hesita
ou o vento que tumultua
naipes de pétalas
é por semeaduras
não vingadas

perdida nos dedos foi
a conta das palavras
endereçadas a oceanos
entre outros azuis
o coração ilhado vi
aos poucos cegar

já não me alucinam
o vórtice das asas e um
outro mar que não este:
antes que tardios velames
e primaveras indecifradas
insuflado o desencanto
sopesa assim em mim

de mais um dia que me escapara


"Nuvem e Serra", Henrique Coutinho

mais que silhuetas
de aves e moinhos
ou nenhuma sílaba
costumeira
silente o poente rubricava
o cimo da paisagem

eram brisa e tarde
em torvelinho
eu por réu e testemunha
sem saber conjugar ao certo
tempo e modo meus
de existir

terça-feira

antes das futuras constelações


"Barcos de carvão", Vincent van Gogh

asas confundiram-se
esvoaçando silêncios
na tarde que fora campo
tão fértil para o sol
e pela hora em fuga
logo seria noite intensa
talvez até em demasia

estrela qualquer que
por ali orbitasse
negaria a mim veredas
e definitivos que eram
os dedos dos ventos
inclinavam-me mais que
a trigais adormecidos
aos estaleiros da solidão

domingo

escolhidas as cores do auto-retrato


"Saint Remy", Vincent van Gogh

meu é este coração tão
espoliado da sede
que agora estanque
minhas as mãos que
adelgaçam reminiscências
de vertiginosas estrelas
ainda que nada reste ali
das promessas vazias
de ancoradouros

sou sim a memória dos
equívocos de pétalas
na ruína desfolhada
de tantos calendários
o registro nas estações
dos amores fugidios
que marcharam ao largo
mas antes ubíquos
nos meus dias à
semelhança do azul

sábado

do que se perdera na estação anterior


Claude Monet

antes de a primavera
chegar ao seu destino
eu tateava setembro
porque me roubado
dos olhos o alento
o brilho constelado
e sem panegíricos ao sol
o azul já não me reinava
como antes absoluto

da minha lira esmaecida
indagava-me uma nota
sobre aquele coração que
decifrava os ventos:
onde eu o deixara ou
onde ele se perdeu
aquele moinho de sonhos
que outrora girava
dentro do peito meu

ante o céu que não me levara


"O Rio", Claude Monet

pássaro que almejara
os presságios do sul
eu não mais compunha
o vértice de asas na
geometria da tarde
inerte ante os arroubos
e a primazia do sol

sem as prerrogativas
do azul e do vôo
restara-me cumprir um
itinerário de solitário rio
o coração exilado em
remansos e quedas
entre pedras meu remar

terça-feira

eu que tão longe do novo mundo


"Cabana de pescadores", Claude Monet

paisagem que mareja
à passagem do olhar
vejo velhos continentes
outras milhas desconheço
que não o périplo da dor

gaivotas silencio com
barco nenhum ou
ninguém por chegar
rumo outro às velas
meu coração nunca
soube instigar

tristezas costeiras
há muito que regem
dessas águas o leme
tempo infindo faz
apropriaram-se do
que era meu mar

sábado

Odisseu alheio às sereias


"Ulisses e as sereias", Pablo Picasso

já não fazia valsar a estrela
a sinfonia do cosmo silenciada
nem me devolviam os mares
o quanto a vida me saqueara
alertaram-me jardins que
amor-perfeito apenas era
epíteto de uma flor

mas em sonhos eu ainda cria
embora já não os tivesse
e nem ouvisse das sereias o canto
eu que num recôndito do peito
aquele oceano esquecido
trazia tatuadas indeléveis tintas
matizando o desencanto

nenhuma estrela no deserto


ilustração para o Livro das Mil e Uma Noites,
Luís Filipe de Abreu


concludente o vento
que de sonhos me
esvaziara a mão
nenhuma tâmara
para este coração
que se sabe beduíno
que o sol vive a crestar

entre dunas de solidão
o amor em mim é sede
indagando oásis
miragem a felicidade
que nunca pude tocar

sexta-feira

Sísifo à minha maneira


"Paisagem em Murnau", Wassily Kandinsky

um girassol contemplativo
acompanho a tarde desfeita
seus ritos de passagem
esperando das vagas o regresso
incerto de barcos e amores
reminiscências que se dissipam
nos moinhos de Khronos

não bastará da noite
o ricercare gotejando
volutas de estrelas
ante o que vi ficar invisível
o vazio que me atinge em cheio
não é azul nem vesperal
tem algo que beira o infinito
peso de uma ou mais eternidades

quarta-feira

quase uma ode a Dioniso


"Dioniso criança"

da manhã as tríades
clamavam por passos
perder-me ali seria
então celebrar a vida em
festejos de vinho e pão
um tácito sim dizer às
circunstâncias do vento
num ínterim de sol

pouco eu ambicionara
além da primavera
em lugar do silêncio
que se agigantava
matiz outro ao coração
propiciar
e um levante de asas
assim talvez permitisse
desvencilhar a teia
os nós da solidão

terça-feira

sem a intervenção de Homero


Claude Monet

barco vazio de presságios
eu sem deuses ou estrelas
tateava da tarde os enigmas
na travessia do outono
sem saber quanto tempo
o coração pode esperar

testemunharam por
mim vôos e gaivotas
eu perdera o horizonte
na confluência dos azuis
eu que não nasci Ulisses
e tanto quanto de amores
nunca soube do mar

o zodíaco de quando cheguei aqui


"Mãe e criança", Pablo Picasso

novembro anunciava
eclipses quando nasci
numa quarta-feira, manhã
de vinte e nove labirintos
certamente que um dia
roubado da primavera
de anjos que se ausentaram
ou de sol em desalinho

um instante de pássaros
endereçados ao nada
frágil gládio de velas com
o horizonte confrontado
tudo assim denunciado
nos arabescos do destino
e no azul não se desenhava
nenhum luminoso vaticínio

domingo

do céu que ainda restara


"Campo de trigo com ceifeiro e sol", Vincent van Gogh

albatroz clamei
sobre oceanos
sem burlar o avizinhar
de espectros
ritos meus não afugentaram
salteadores de estrelas

não detive o vento
com apelos de pétala
nem a lágrima reticente
impediu-me dos olhos
o transbordar
vazante da maré

restou abandonar a leste
os mapas de levantes
esquecer da lua o encalço
outros azuis tecer
percorrer trigais em
lugar da escuridão

o que me vai na algibeira


"O semeador", Vincent van Gogh

pouco depois que nasci
concedeu-me asas
um hierofante e
também o medo das alturas
com água, vento e fogo
foi sacramentada a
minha solidão

desse labirinto sépia que
é o ontem do meu tempo
às avessas palmilhado
restam cicatrizes no rosto
do coração ferido em ocasos
reminiscências de estrelas
pouco mais a ser levado

carrego comigo alguns
versos de memória
eu que me atenho ao
nexo das palavras
mão nenhuma presa à minha
e ainda a própria sombra
que ora se me esquiva
se foge de mim o sol

o tempo e seus anelos


"Jardim Florido", Vincent van Gogh

o calendário ansiava
a primavera
tempo era de libertar
a beleza da clausura
das torres do inverno

transposto o fosso
das estações
setembro que chegasse
entre cores levadiças
revivendo girassóis

cavaleiro andante
o sol delegou a mim
cultivar flores
sobrevindas
semeando poesia
pelo chão

rapsódias do fogo


"Mantiqueira", Henrique Coutinho

descuidado o sol
deixou a paisagem
incandescente
já que ainda acesas
suas brasas
em meio à turba de asas
que nas distâncias
submergia

ali na tarde eu via
um dos meus desatinos
em rapsódias que o
coração não cessava
sempre que ateadas
antepassadas feridas
exumar amores
lidar com fogueiras
adormecidas

sábado

sem as bençãos de Netuno


Claude Monet

pelos rochedos
estilhacei ondas
das aves orquestrei
a debandada
ungindo com o sol
mais de uma enseada

destinos ordenei
aos barcos
os ventos dispus
em quadrantes
à paisagem dei azuis
acrescidos de rompantes

no cais sonhei com quem
não e nunca me quis
enquanto o mar soçobrava
entre o amor e seus anis

antes fronteiriças que luminares


"Mesa em frente à janela", Pablo Picasso

seja a estrela ao horizonte
sobrepondo-se
nascente o dia ao leste
ou a pétala pelo vento
sequestrada
o que por elas entra ou
o que sai e vai embora
tudo faz delas liame
entre meu mundo e
o universo lá fora

as fronteiras da casa é
de lei que são as janelas
se por insone ou triste
ao certo não sei
não tenho visto sonhos
escapulindo por elas

sexta-feira

para quem faz tanger a minha lira




não vim das Plêiades
porém qual Mercúrio
trouxe minha lira
arauto que sou
de sete cordas
e se paro aqui não é tanto
pelo que corri alvissareiro
o orbe que num átimo
circunavegado

mas para com meu
capacete alado reverenciar
quem me impõe tão
célere o coração
e as sandálias minhas
também descalçaria
para tocar o mesmo chão
que recebe os teus pés

dos cortejos de Éolo


"Maison Maria", Paul Cézanne

de adestrar os ventos
então desisti
capitulando ante tão
imensuráveis rastros:
desalojadas as nuvens
janelas devassadas
a paisagem em desalinho

se impossível confiná-los
já que indômito o frenesi
melhor colher os frutos
do que percorre a rebeldia
eles transpondo meus recados
um destino dado à minha poesia

quinta-feira

muitos quadrantes depois


"Menina com barco", Pablo Picasso

quisera o teu amor
mas naves mercantes
desviaram nosso encontro
era outra a rota dos mares
no assinalado do mapa
do teu coração

mareante que pouco sabia
do teu império
para moeda de troca
eu guardava apenas
uma estrela
na palma da mão

arcanos lunares


"A lua", Tarsila do Amaral

assim a lua é símile
à solitude de um veleiro
funambulando na bruma
fracionada quase ao meio

serial então ela ruma
elíptico dela o enleio
e mais dia menos dia
propor-me-á uma questão

quando ela for plenilúnio
eu que já tive momentos
mais constelados
continuarei no rés-do-chão

quarta-feira

do meu caderno de viagens


"O anjo ferido", Hugo Simberg

ávido de azuis
com os olhos desenho vôos
pelo que longe e sempre
acima de mim

anjo sem plumagem
rastejo quedas
mortal e tão reles
que nunca querubim

prefaciando a chuva


"Nimbus", Henrique Coutinho

dos nimbos o rufar
mostrou-me do azul a ira
por meus olhos de tantos
outros céus colecionados

ali onde asas encenaram
festejos e ritos
não mais um porto
para celebrar
suspensa que ficava
assim a tarde

eu que sofria a amplidão
bateia nas mãos
apenas procurava o sol
garimpando sonho
algum que restasse