sábado

entre as ondas e outros mares


"Marinha com barcos", Arcangelo Ianelli

um navegador sem leme
ventos, bússola ou maré
eu ao adentrar pé ante pé
o oceano desta existência
o que explica as primaveras
tantas não singradas
os amores que não lograram
o mar da plenitude

eis o mapa de tal vicissitude
a recusa permanente e sem fim
ante um outro continente
ao deixar a vida inclemente
tatuar indelével em mim
nada além deste destino de
tropeçar na estrela caída ou
de na minha própria tempestade
soçobrar a cada tarde

quarta-feira

do mar do amor que eu não singrava


"O mar de Pourville", Claude Monet

um barco sem ventos em
odisséia por hemisférios
distante do sol da paixão
é como hoje eu me retrato

vendo exígua e baça a vida
que constelada então sonhara
um gris sem leste aquele céu
que o azul antes engendrara

o coração meu aos poucos
se percebendo estanque
qual rosa que fora vermelha
e ora se revela exangue

domingo

a sina do que não se pode habitar


"Quarto de dormir em Arles", Vincent van Gogh

perdido o encalço do
périplo da estrela
meus olhos já não alçam
grandes vôos
triunfa o desencanto
sobre todos os sonhos
muito da noite restará
ainda ao amanhecer

a vida seguirá estival
na próxima estação
e eu que colecionara
ventos e presságios
se ainda aqui
semearei a solidão
espargindo alguma poesia

o coração cumprindo
inelutável um destino
de casa vazia

sábado

no interregno do ocaso


"Paisagem com casa e lavrador", Vincent van Gogh

perambula concomitante
aos arroubos do sol
meu anônimo desencanto
e eu que quase sempre ontem
anseio um outro agora

mas a palavra não suprime
nem preenche ausências
diz-me a turba de pássaros
que pela tarde arvora
sentenciando o instante

e nada põe termo ou fim
à solidão renitente
que ladeia permanente
entreatos do coração
recôndito em mim

quinta-feira

no labirinto das estações


"Primavera Sagrada", Paul Gauguin

tudo quanto vicejava
era testemunho de que
os ritos do pólen
se mostraram fecundos
enquanto confirmadas
as lendas da estação

só eu destoava dos vôos
de asas e girassóis
contrapondo ao irisado
profuso de pétalas
descaminhos eternos
de um trôpego coração

eu que nascera outonal
e há muito sabia a primavera
desfeita em mim

sábado

a solidão como sextante


"Barcas de carvão", Vincent van Gogh


o que o traslado do sol
alardeava como novo era
só mais um novembro
e entre as dunas do tempo
eu contava nos dedos tudo
que o vento me levara

ah, quão pouco me restara
além de um destino assim
atracado ao desalento
eu que nunca tive o mar
mas conhecera do amor
tempestades e vazantes

eu que criara portos
em inúmeros desertos
por ter riscadas nas
areias de cada mão
a palavra e o desatino
como rotas por singrar

não muito longe da Arcádia


"Paisagem noturna com lua cheia", Vincent van Gogh

mesmo que bem pouco
me assemelhe a Pã
já não tenho o afã de
um dia ser amado
adverso meu destino de
pelas ninfas sempre
ser abandonado

poderia vê-las então
como parte do arvoredo
ou sendo ecos do passado
já que Selene me apraz
porém qual a vida ou
a noite estabelecida
este amor também fugaz