terça-feira

num caminho que vai de Éolo a Chopin


"A noite estrelada", Vincent van Gogh

assim o pólen dos
sonhos
um contraponto ao
dia encerrado
fazendo da noite
lago constelado

eu que tudo contemplo
na solidão pereço
noturno é a música
do vento
ferindo-me num
arpejo lento

quinta-feira

nas brumas do que me falta


"Campo das papoulas", Vincent van Gogh

eu já tive nos olhos
o lume da estrela
mas adagio que não ouço
a felicidade de mim
não mais se avizinha

e agora não me bastam
o enlevo de brisa e palavra
ou presságios do outono
nesta tempestade sem
abrigo que é a solidão

e vão é mais um
dia terminado
dissonância na harmonia
da paisagem a luz em fuga
e o amor um cais
não encontrado

quarta-feira

quão concludente um ocaso possa ser


"Passeio ao crepúsculo", Vincent van Gogh


vai além do gestual de asas
a insígnia dos pássaros
para esse desamparo
que me atrela ao chão
e tênue é a fronteira dos azuis
nesse longe onde
o coração dispus

não é ária ou elegia
a dor que me confunde
está estampado assim
nos vitrais da tarde
o que eu sempre soube
não fosse meu destino
de nele nunca navegar

e mar claro seria o amor
ainda que apenas céu
sobre mim o firmamento