domingo

por vezes


"Moinho em Zaandam", Claude Monet

por vezes sou moinho
indiferente à paisagem
asa que ao longe desvanece
e se escrevo silêncios é
por desertos contemplar

mas ainda ouço atento
as narrativas da brisa
sigo os passos das águas
olhos tenho para tudo
que for estelar

remanescem em mim
o ofício da palavra
o confabular dos sonhos
e o que o coração ainda
possa ensejar

segunda-feira

da noite antecipada


"Vista de Auvers", Vincent van Gogh

não posso deter
o rapto das luzes
o presto das asas
tornar ridentes
os sinos
se também tudo
em mim é ocaso

e qual a tarde em
entreatos pereço
no meu coração
já sendo noite
bruma e não mais
que palavras
a vida por orquestrar

quinta-feira

depois de desfeita a madrugada


"Os campos", Vincent van Gogh

feito asa reticente
me confundo a leste
percorrendo a espera
na promessa de mais
um dia nascente

solidão desenhada na
paisagem das mãos
o silêncio é circunvizinho
palavras relevo em troca
do que me alimente

minha fome que não
de vinho e pão
o coração por saciar
enquanto ave eterna
o amor não retornar