sábado

seja a brisa ou devaneio

"Campos de trigo", Vincent van Gogh

em lugar do coração
penso ter um moinho
que por vezes estanca
se me falta o alento

pois preciso do que
me insufle a alma
nos campos de silêncio
das palavras por cultivar

seja a brisa ou devaneio
para o verso que semeio
não ter tão só a dor como
chão para germinar

domingo

nem é outono ainda










"Vista do asilo e da capela de Saint- Rémy", Vincent van Gogh

se março quase finda
nem é outono ainda
segundo a estação que
cumpre o calendário

o cenário que de mim
se apropria, todavia
solidão faz entrever e         
a paisagem desafia

pois se ausente o amor
o desencanto desenha
cada dia que se fia em
deserto por transpor

mesmo que assim








 
"Jardins de vegetais em Montmartre", Vincent van Gogh

o vento que nada
parece ter de secreto
ou para ser decifrado
enigmas traz em
sigilo no seu sibilar

a mim é dado ouvir
suas reminiscências de
moinhos, campos de trigo
ou  dos acenos de 
algum outro mar

mesmo que seu passo
eu não acompanhe
mesmo que assim
ilhado em mim
eu insista em ficar

sua intrincada cartografia










"Navio pesqueiro ancorado em Ruen", Claude Monet

hoje sou qual um barco
à deriva soçobrando
sem sequer ter o azul, algum
norte ou mesmo quando

se desencantos navego
outros mares não intento
assim é meu périplo, sem
cais ou sinais do vento

o amor me confunde tal
sua intrincada cartografia
impondo-me circunavegar no
que a solidão me sentencia