domingo

entre os polos














 "Lavacourt, sol e neve", Claude Monet

do outono que
se despede
fica o travo do que
me sentenciado
sem agravo, sursis
ou apelação

sem outros voos  
engendrar
mesmo sem asas
inverno assente
entre os polos
da dor migrar

do limiar  da
estação ao
hemisfério gris
da solidão

a esmo num mesmo mar

"Três barcos de pesca", Claude Monet

meridianos atravesso
sem viver ou navegar
seguindo sem horizontes 
a esmo num mesmo mar

sem avistar do amor a
terra firme, leme perdido
por nas tempestades
tanto ter me ancorado

por ter em mim tatuado
indelével como um não
este naufrágio em silêncio
que é a solidão

sábado

das palavras egressas









" À beira-mar em Saint Adresse", Claude Monet

das palavras egressas
trago múltiplos silêncios
circunavego na vida que
em noite vai se tornando

sem um reduto  entre
estrelas para me abrigar
solidão confessa, sem um
mapa para me situar

sem laivo algum do amor
a felicidade em desterro
dor em longínquo mar

terça-feira

o azul sem regresso












 
 

"Paisagem com campos arados" Vincent van Gogh


alinho palavras que
a tarde me outorga
pois o que existe de
mim é circunscrito
ao silêncio

e  emudeço no que
me expresso
pois bem sei o azul
sem regresso
do céu sucumbindo
ao chumbo do chão

por epígrafe tenho
as asas ceifadas
o afã de ocasos
e mais o zênite
da solidão

quarta-feira

pronuncio tristesse



















"O pássaro na gaiola", Pablo Picasso

inerte de amores
o coração segue em
staccato e a vida em
andamento lento

pronuncio tristesse
pois nada define
melhor este momento

de palavras em viés
e indecifráveis postulados
do vento