sábado

sem vagas, sem velas











"Litoral em Saint-Adresse ao pôr do sol", Claude Monet


mesmo que sempre
eu evoque o mar
tenho que aquiescer
pelo destino de ter
nas dunas meu cais

pois meus olhos que
espelhavam anelos
de barcos e gaivotas
singram não mais
que desertos

ancoradouros incertos
sem vagas, sem velas
pergunto às areias, em vão
onde estarão os azuis

impossível como a luz












"Um grupo de casas de campo", Vincent van Gogh

tateio o ocaso entre
meneios de aves e
dobres de sinos
sem  promessa
de horizontes

como se em mim
ecoasse um  lamento
brônzeo em sarabanda
adivinhando a noite
em meio à revoada

como se a felicidade
fosse a tarde
em derrocada
escassa e impossível
como a luz

domingo

o índigo e o gris















"A colina de Montmartre", Vincent van Gogh

se me esqueço menestrel
é por não mais saber em
meu mosaico de passos
onde se envereda a luz

como que dando adeus
à tarde e às palavras
me faço fugidio e errante
num levante de silêncios

onde o coração se divide
entre o índigo e o gris
do amor e seus ardis

sexta-feira

ao contrário do outono














"Neve em Argentuil", Claude Monet

das palavras até
então cultivadas
como trigo ou centeio
agora nada semeio

e nas mãos acolho o
silêncio circunspecto
do que invernal me fere
uma dor que nunca breve

ao contrário do outono
que finda seus decretos
em mim a solidão é estação
que não prescreve

quinta-feira

a dor que não se finda
















"Barcos no porto de Honfleur", Claude Monet

no que escrevo assim
à surdina, me esmero
em pouco desvelar
do meu coração cifrado
para quase nada dele
então segredar

recorro a barcos ou a
um imaginário mar
mas  tudo me deslinda
as palavras dissimuladas  
os versos consumados
a dor que não se finda