domingo

entre burlesco e insano






  



 

"Campos de flores e moinhos perto de Leiden", Claude Monet

longe das províncias ou
de paisagens de moinhos
sem feitos intrépidos  
apenas sei claudicar

sem galgar os degraus
entre passado e presente
ensejando miragens em
andante desengano

entre burlesco e insano
sem saber brandir a lança
ou uma armadura trajar
um reles tolo a versejar

anacrônico Quixote ante
a solidão e sua agrura
eu que nunca cavaleiro
porém eterna triste figura


terça-feira

no que tão deserto o meu mar














"Farol e hospício, Zurique", Claude Monet
 

o coração que silencio
qual barco só e arredio

como que em nós enredado
não sabe se situar

num abismo assim
sem lugar ou tempo

sem um sextante ou
quadrante solar

ancorado num cenário de
naufrágios sem saída

sem contrapartida, horizonte
ou asas para zarpar

sem nada mais por avistar no
que tão deserto o meu mar

a alma tatuada por anelos de estrelas




                                                           









"Barcos de pesca que saem do porto", Claude Monet


                                           Para Graça Pires, a partir da leitura de "Espaço livre com barcos"
 

argonauta das palavras
não te ancoras no
outrora no que te
dispões a marear

e teu porto de partida
é a alma tatuada por
anelos de estrelas e
ávida por singrar

ao tomares pelas mãos
brisa, gaivotas, velas
atrelas teus versos a
itinerários dos azuis

pelos quais sempre vais
entre acenos de barcos
vagas, rituais de lemes
e  pontos cardeais

domingo

para nada mais ser














"Fábricas em Asnières  avistadas  do Quai de Clichy", Vincent van Gogh


repleto de silêncios é
o labirinto ou destino
em que me confino

e ainda que breve
a faina do verso me
circunscreve

eu enfim sem lugar
em tarde que não é terra
e nem  tampouco mar

vivendo em eclipse
uma lira imaginária
sempre dedilhando

meus arpejos ecoando
no que da existência
me desvio

para nada mais ser
do que ser invisível
ou fugidio