quarta-feira

como mote ou como mar


"Homem sentado com espada e flor", Pablo Picasso

enquanto engendro versos
o coração não se compraz
e o tempo me despe de
sonhos sem se apiedar

a vida segue a esmo
indômito barco fugaz
sou um cais de ausências
horizonte nenhum no olhar

contraceno com silêncios
gestos vazios, labirintos
a tristeza em lugar do amor
como mote ou como mar

domingo

por vezes


"Moinho em Zaandam", Claude Monet

por vezes sou moinho
indiferente à paisagem
asa que ao longe desvanece
e se escrevo silêncios é
por desertos contemplar

mas ainda ouço atento
as narrativas da brisa
sigo os passos das águas
olhos tenho para tudo
que for estelar

remanescem em mim
o ofício da palavra
o confabular dos sonhos
e o que o coração ainda
possa ensejar

segunda-feira

da noite antecipada


"Vista de Auvers", Vincent van Gogh

não posso deter
o rapto das luzes
o presto das asas
tornar ridentes
os sinos
se também tudo
em mim é ocaso

e qual a tarde em
entreatos pereço
no meu coração
já sendo noite
bruma e não mais
que palavras
a vida por orquestrar

quinta-feira

depois de desfeita a madrugada


"Os campos", Vincent van Gogh

feito asa reticente
me confundo a leste
percorrendo a espera
na promessa de mais
um dia nascente

solidão desenhada na
paisagem das mãos
o silêncio é circunvizinho
palavras relevo em troca
do que me alimente

minha fome que não
de vinho e pão
o coração por saciar
enquanto ave eterna
o amor não retornar

sexta-feira

da ausente melodia


"Natureza morta com guitarra", Pablo Picasso

na solidão é monocórdio e
sem arroubos o coração
e existir não mais do que a
récita de uma lira quebrada

mas se uma só palavra
transgride o silêncio
um verso me espreita
e eis a vida constelada

entrelinhas e sonhos
agora em minhas mãos
onde antes havia nada

sábado

das esquinas abissais


"Praia e falésias em Pourville, efeito da manhã", Claude Monet

endereço palavras num
oceano sem saída
sou só um barco ausente
que sempre dista do cais

âncora lançada no ar
minha dor é decassílaba
e a solidão me navega
por azuis e transversais

quinta-feira

líria porto ao mar


"Retrato de mulher com chapéu", Pablo Picasso

Para Líria Porto, do blog Tanto Mar

quando se liquefala
num uni(co) verso
entre o voo e navegar
me faz crer que ver seja
não só com os olhos
mas com o coração

doida de pétala
single lar seu cais
assim me abissalva
com suas borboletras em
flores de aço, cenas
enquanto cotidiana
indaga ação

terça-feira

o pouco que a palavra tece


"Campo de trigo verde com cipreste", Vincent van Gogh

ao tempo que me deserda
digo que eu não queria
a vida assim
uma camerata silente
o amor que não se pressente
a rosa dos ventos não cabendo
na palma da minha mão

na odisséia do sol tenho
só os ocasos do coração
o pouco que a palavra tece
o azul que se perdeu
o horizonte que não se avizinha
a alma sempre sozinha  que
habita o poema meu

sábado

o que a estrela possa desvendar


"Oliveiras", Vincent van Gogh

em meio a sete silêncios
que me tomam a palavra
a solidão me afronta
o rosto
e sol deposto
a noite me naufraga
entre seus desertos
e enseadas

mas sombras, outonos
e madrugadas
imaginários barcos
e moinhos
ainda quero do vento
a melodia
ou o que a estrela possa
desvendar

ser somente a folha
que amarelece e cai
nunca me bastaria
eu sendo verso e a vida
chão por semear

domingo

dos solos deste janeiro


"Guitarra na cadeira", Juan Gris

em permanente ocaso
ausento-me pelas ruas
pois que perdido já não sei
amanhecer palavras

entre gládios e labirintos
cruel janeiro me sentencia
dor e silêncio a capella e
ainda claves de nostalgia