quarta-feira

mais ausente que jogral


"Violino e guitarra", Pablo Picasso

debandadas as palavras
no coração meu a vida
feito página desabitada é
moinho a esmo remoendo

e vou como que morrendo
sem horizonte ou ocaso
cultuando o gris com que
a tarde erige seu mural

eu na solidão assim ilhado
pássaro trôpego e silente
em meio à chuva vesperal

sexta-feira

da cor do que não permanece


"Gokula", Henrique Coutinho

qual a chuva ou o vento
o amor sempre me foi assim
algo arredio em seus súbitos
pelo que vejo paisagem
em despojos da tarde finda
ou na madrugada da estrela
que ruma incerta

dele me ficou o invisível
da solidão sem entretanto
como se do mar em lugar
do azul uma lembrança de sal
rastro de um indelével
instante de quase pranto
dor violeta na hora estival

sábado

entre as ondas e outros mares


"Marinha com barcos", Arcangelo Ianelli

um navegador sem leme
ventos, bússola ou maré
eu ao adentrar pé ante pé
o oceano desta existência
o que explica as primaveras
tantas não singradas
os amores que não lograram
o mar da plenitude

eis o mapa de tal vicissitude
a recusa permanente e sem fim
ante um outro continente
ao deixar a vida inclemente
tatuar indelével em mim
nada além deste destino de
tropeçar na estrela caída ou
de na minha própria tempestade
soçobrar a cada tarde

quarta-feira

do mar do amor que eu não singrava


"O mar de Pourville", Claude Monet

um barco sem ventos em
odisséia por hemisférios
distante do sol da paixão
é como hoje eu me retrato

vendo exígua e baça a vida
que constelada então sonhara
um gris sem leste aquele céu
que o azul antes engendrara

o coração meu aos poucos
se percebendo estanque
qual rosa que fora vermelha
e ora se revela exangue

domingo

a sina do que não se pode habitar


"Quarto de dormir em Arles", Vincent van Gogh

perdido o encalço do
périplo da estrela
meus olhos já não alçam
grandes vôos
triunfa o desencanto
sobre todos os sonhos
muito da noite restará
ainda ao amanhecer

a vida seguirá estival
na próxima estação
e eu que colecionara
ventos e presságios
se ainda aqui
semearei a solidão
espargindo alguma poesia

o coração cumprindo
inelutável um destino
de casa vazia

sábado

no interregno do ocaso


"Paisagem com casa e lavrador", Vincent van Gogh

perambula concomitante
aos arroubos do sol
meu anônimo desencanto
e eu que quase sempre ontem
anseio um outro agora

mas a palavra não suprime
nem preenche ausências
diz-me a turba de pássaros
que pela tarde arvora
sentenciando o instante

e nada põe termo ou fim
à solidão renitente
que ladeia permanente
entreatos do coração
recôndito em mim

quinta-feira

no labirinto das estações


"Primavera Sagrada", Paul Gauguin

tudo quanto vicejava
era testemunho de que
os ritos do pólen
se mostraram fecundos
enquanto confirmadas
as lendas da estação

só eu destoava dos vôos
de asas e girassóis
contrapondo ao irisado
profuso de pétalas
descaminhos eternos
de um trôpego coração

eu que nascera outonal
e há muito sabia a primavera
desfeita em mim

sábado

a solidão como sextante


"Barcas de carvão", Vincent van Gogh


o que o traslado do sol
alardeava como novo era
só mais um novembro
e entre as dunas do tempo
eu contava nos dedos tudo
que o vento me levara

ah, quão pouco me restara
além de um destino assim
atracado ao desalento
eu que nunca tive o mar
mas conhecera do amor
tempestades e vazantes

eu que criara portos
em inúmeros desertos
por ter riscadas nas
areias de cada mão
a palavra e o desatino
como rotas por singrar

não muito longe da Arcádia


"Paisagem noturna com lua cheia", Vincent van Gogh

mesmo que bem pouco
me assemelhe a Pã
já não tenho o afã de
um dia ser amado
adverso meu destino de
pelas ninfas sempre
ser abandonado

poderia vê-las então
como parte do arvoredo
ou sendo ecos do passado
já que Selene me apraz
porém qual a vida ou
a noite estabelecida
este amor também fugaz

sexta-feira

de argonautas e poetas


"O Mar", Claude Monet

retomo o leme da palavra
ainda que da estrela o assédio
já não seduza o meu olhar
eu que fui de tantos sonhos e
hoje sem horizonte por singrar

do amor motins não debelados
para o coração a vida soçobrada
assim o abissal inóspito da solidão
e o que o verso não redimir
dor será em eterno navegar

quinta-feira

no silêncio que entremeava a manhã



"Paisagem em Auver na chuva", Vincent van Gogh


o desencanto não faz versos
diz-me na celebração da primavera
o coração assim cerceado
pois nenhuma mísera palavra
retive no esconderijo das mãos
desde que o dia se fez começado

a poesia na bruma a se esconder
em escombros os castelos meus
nenhum moinho então por mover
hoje tudo traduz o que é desalento
se percebem fugaz a areia dos sonhos
saberão cruéis os passos do vento

domingo

cantiga para um rio de inúmeras margens


"Mulher na janela", Pablo Picasso

para Márcia Maia

um orquidário de versos tua
poesia por uma lira acalentada
assim em sexteto executada
mais redemoinhos, sóis e altiplanos
a palavra espreitando oceanos

atando pétalas ao cotidiano do
que medra em circunstância
seja a estrela celeste ou do atol
lua e amor em quarto crescente
a pedra da rua ou o azul lençol

espelhos, rios, varanda e entreatos
dias santos ou encantos do pecado
tudo no teu canto, tudo faz pensar
que o gris deve sempre ao irisado
ceder tanto a vez quanto o lugar

encontro ainda breves adagios
e mais do que a tarde abreviada
para além de sombra e catavento
o que fere e o que acalanta
e um girassol que se agiganta

sábado

do que se avistava


"Girassóis", Vincent van Gogh

diferente do girassol
o coração meu não sabe
mais amores espreitar
cego está o périplo dos olhos
às iluminuras desta vida
continente que confesso
eu nunca soube aportar

eclipse de tardes e sombra
sorrateiro é o desencanto
tecendo mosaicos de dor
no caleidoscópio da primavera
impondo assim em mim
a matiz da solidão
em lugar do sonhar

quinta-feira

ante um céu ensurdecido


"Montanhas de Saint Remy", Vincent van Gogh

se trago perdidos os olhos
no emaranhado das nuvens
preciso de um tempo que
anterior à tempestade
pois nos bosques adormecidos
indistintos são os gritos
da solidão e do vento
entre o ocaso e as potestades

em mim as dores são tácitas
feito indícios da primavera
refazendo o viço dos campos
e na imensidão que contemplo
se meu coração for confrontado
vestígio nenhum do amor
como o fogo ou múltiplas rosas
será então encontrado

de uma dor que amanhecia


"Sombras no mar", Claude Monet


uma brisa destinada a
imaginários moinhos e velames
presságio da luz começada
estampou no meu olhar
abismos do amor ausente

manhã de desertos
que se fazia infinita
a vertigem do silêncio
secara assaz então
meu oceano de palavras
entre acenos de outubro
e os abandonos do azul

passava ao largo a
inexistência de gaivotas
ou de algum outro cais
menor que era ela ante
a solidão vingando
barcos em mim

terça-feira

impossível ainda que amor


"Salgueiros no por do sol", Vincent van Gogh

mal a paisagem acolhera
confidências da primavera
percorri palavra por palavra
os abismos de pedras e ruas
a hora indócil da solidão
e entre funâmbulo e beija-flor
vi incerto o mapa do coração
em seu tortuoso navegar

olhos tateando o ocaso
assim entre a brisa e o verso
procurei um irresístivel istmo
que inapelável nos atasse
mas o amor propunha oráculos
em meio aos azuis e descaminhos
sem que eu ou mesmo a tarde
pudéssemos desvendar

segunda-feira

a rítmica da estação que se celebra


" O Jardim do hospital de Saint-Paul", Vincent van Gogh

ainda que efêmera a palavra
a poesia percorre outubro
o amor adentrando a casa
inesperado o novo norte
em mim assim a ancorar

e se havia a espera da pétala
ou também do giro do catavento
tornava-se irremediável agora
a saga do fogo e das asas
tais os súbitos da floração

depois avançada a primavera
no coração e nos hemisférios
meus versos mesmo que descalços
tocarão então um outro chão

domingo

insofismável é a sua chegada


"Retrato de Dora Maar", Pablo Picasso

canção incerta o amor
que chega entre enigmas e
penínsulas circundantes
palavra provocativa a me
morder assim os lábios
qual serpente e princesa
evocando danças e o sol
na tangencial dos sinos

dispõe tardes e interstícios
essa emoção que agora
mapeia o coração ou o
diapasão de outros versos
os meus universos tantos
sonho e mosaico enfim
esta dádiva e este encanto
fazendo ceder da solidão
o fio que me era atavio

solfejos matinais para Assis de Mello


"Cisnes refletindo elefantes", Salvador Dali

não trompete a mim
definir se você Salvador
daqui ou de acolá
ante a surrealeza dessa verve
poesia de estalactites que
respinga alumbramentos
e ressoa tríades dignos
da Guimarães prosa

Isabelas sistinas, pedras
ruínas de verões andarilhos
serpentes, domos, pomos
naturezas tortas e assentes
lesmalucas ou mesmo
o dia que se ancora em
estrelas camulfladas
são a gênese dos sete dias
da sua criação

diria que seu céu abobadado
não é mais azul renitente
se assim belo e violáceo
daí resulta que mais e só
importam seus versos
sacrílegos sobre telas

ou as aves que dançam balelas
enquanto férteis os nimbos
se exaltam e se acumulam

sábado

a tecelã em quem eu me enrodilhara


"O Sonho", Pablo Picasso

Para Diva Paiva

inútil me esquivar da mão
que estende do novelo o fio
quando não mais sei o que
manhã ou labirinto
se a vida é fábula ou mito

desvendando quadrantes
qual Ariadne vem você
me segredando à meia voz
quão simples o que a mim
negaceia como trigonometria

Minotauro aturdido
no centro da arena ouço
da mais bela exegeta
que o amor é tão somente
o sol que varre intempéries

a brisa que sine qua non


"Nuvem de Cobre", Henrique Coutinho

há muito que trago
as asas quedadas
o coração em surdina
do horizonte fiz
então cidadela
o verso meu tem o
recato da solidão

desde que passem
ventos certeiros
de um amor a mim
endereçado
recolherei murmúrios
de pétalas
ou quem sabe revérberos
de estrelas pelo chão

sexta-feira

a quem me desperta para sonhar


"Head", Pablo Picasso

Para Diva Paiva

neste arquipélago da
solidão que me ilhara
eu que não ousei dos
mares a travessia
pergunto quanto dista
o azul que nos separa

ouço das salamandras
que afins que são
amor e fogo se conjugam
no quanto irradiam
cúmplices do sol e do ar
feito mantra e pentagrama
ou como cores no tear

estrela que não alcanço
vislumbro você assim
primavera que há
pouco começada
o que o coração meu
ainda não cumprira
a esfinge não desvelada

quarta-feira

um chão que não de sete mares


"O Farol", Anita Malfatti

nos ideogramas da
tarde indecifrável
a rosa dos ventos era
antes rota de labirintos
do que rumo para o sol

farol e pressuposto dos
estreitos da solidão
que se adivinhava
o amor me deserdara
na faina de cada dia

dissonante então a vida
apontava-me mais
desertos para os passos
que oceanos imensuráveis
aos anelos do coração

segunda-feira

um solilóquio que perdura


"Retrato do Doutor Gachet", Vincent van Gogh

à sombra assim da estrela
este monólogo começara
feito brisa clandestina
impondo não mais buscar
uma nesga de felicidade
pois que impossível deter
os ímpetos do tempo ou
a hora da sorte perdida

promessa então poente
o canto do realejo silenciado
era antes constatação do que
mais uma esfinge ou profecia
e ante a vastidão que não espera
eu mais estátua do que asa
a vida e o azul doendo em mim
sem piedade ou meio tom

sábado

longe do que constelava


"Casa amarela", Vincent van Gogh

janelas cerradas
estrela por estrela
já não conto mais
resguarda-me dos
confrontos
minha casa amarela
nela eu tão atrelado
à rédea da solidão

distante do amor e
de seus gládios
o coração meu é
um vertiginoso barco
de arribação
um arco sem alvo
girassol sucumbindo
às antíteses da luz

terça-feira

mesmo que a ela faltassem as flores


"Vairumati", Paul Gauguin


alude a Gauguin
sua pele como que
matizada pelo sol
que ondula em
mares do sul
olhos e cabelos de
imensidão não e
nunca constelada

taitiana em Minas
este seu rastro de
trópico e paraíso
paira acima de toda
possível cor cotidiana
beleza assim outorgada
alegoria e felicidade
primitivas em mim

domingo

eu, Cervantes e os moinhos de vento


"Dom Quixote", Álvaro Reja

resulta em nada atrelar
a chuva aos campos
se o sol em clave se
esgueira à Mantiqueira
incidentais à tarde sim
são as rebeladas asas
como o flautim que faz
estirar a serpente

assim o vento que
acomete moinhos
nada sabe, inocente
de vãs fantasias:
nenhum desdém a
quem canta este mote
se assim tão quixote
ninguém tanto
quanto eu

nem uma cor sequer


"Rimbaud", Pablo Picasso

no que esboço meu
lápis, pena e não palheta
a tristeza me lograra
nem mar ou terra
por morada

então ao sol em seu
sobe e desce escada
pergunto à custa de
quanto guache e água
o azul se perfazia

eu que hoje inexorável
à têmpera de setembro
ou à própria poesia

o gris riscando em mim
tudo que não grafado
em tom nanquim

sábado

ainda da safra que se perdera


"Pier Itágua", Carlos Herglotz

se bem pouco me dizem
a estrela quando hesita
ou o vento que tumultua
naipes de pétalas
é por semeaduras
não vingadas

perdida nos dedos foi
a conta das palavras
endereçadas a oceanos
entre outros azuis
o coração ilhado vi
aos poucos cegar

já não me alucinam
o vórtice das asas e um
outro mar que não este:
antes que tardios velames
e primaveras indecifradas
insuflado o desencanto
sopesa assim em mim

de mais um dia que me escapara


"Nuvem e Serra", Henrique Coutinho

mais que silhuetas
de aves e moinhos
ou nenhuma sílaba
costumeira
silente o poente rubricava
o cimo da paisagem

eram brisa e tarde
em torvelinho
eu por réu e testemunha
sem saber conjugar ao certo
tempo e modo meus
de existir

terça-feira

antes das futuras constelações


"Barcos de carvão", Vincent van Gogh

asas confundiram-se
esvoaçando silêncios
na tarde que fora campo
tão fértil para o sol
e pela hora em fuga
logo seria noite intensa
talvez até em demasia

estrela qualquer que
por ali orbitasse
negaria a mim veredas
e definitivos que eram
os dedos dos ventos
inclinavam-me mais que
a trigais adormecidos
aos estaleiros da solidão

domingo

escolhidas as cores do auto-retrato


"Saint Remy", Vincent van Gogh

meu é este coração tão
espoliado da sede
que agora estanque
minhas as mãos que
adelgaçam reminiscências
de vertiginosas estrelas
ainda que nada reste ali
das promessas vazias
de ancoradouros

sou sim a memória dos
equívocos de pétalas
na ruína desfolhada
de tantos calendários
o registro nas estações
dos amores fugidios
que marcharam ao largo
mas antes ubíquos
nos meus dias à
semelhança do azul

sábado

do que se perdera na estação anterior


Claude Monet

antes de a primavera
chegar ao seu destino
eu tateava setembro
porque me roubado
dos olhos o alento
o brilho constelado
e sem panegíricos ao sol
o azul já não me reinava
como antes absoluto

da minha lira esmaecida
indagava-me uma nota
sobre aquele coração que
decifrava os ventos:
onde eu o deixara ou
onde ele se perdeu
aquele moinho de sonhos
que outrora girava
dentro do peito meu

ante o céu que não me levara


"O Rio", Claude Monet

pássaro que almejara
os presságios do sul
eu não mais compunha
o vértice de asas na
geometria da tarde
inerte ante os arroubos
e a primazia do sol

sem as prerrogativas
do azul e do vôo
restara-me cumprir um
itinerário de solitário rio
o coração exilado em
remansos e quedas
entre pedras meu remar

terça-feira

eu que tão longe do novo mundo


"Cabana de pescadores", Claude Monet

paisagem que mareja
à passagem do olhar
vejo velhos continentes
outras milhas desconheço
que não o périplo da dor

gaivotas silencio com
barco nenhum ou
ninguém por chegar
rumo outro às velas
meu coração nunca
soube instigar

tristezas costeiras
há muito que regem
dessas águas o leme
tempo infindo faz
apropriaram-se do
que era meu mar

sábado

Odisseu alheio às sereias


"Ulisses e as sereias", Pablo Picasso

já não fazia valsar a estrela
a sinfonia do cosmo silenciada
nem me devolviam os mares
o quanto a vida me saqueara
alertaram-me jardins que
amor-perfeito apenas era
epíteto de uma flor

mas em sonhos eu ainda cria
embora já não os tivesse
e nem ouvisse das sereias o canto
eu que num recôndito do peito
aquele oceano esquecido
trazia tatuadas indeléveis tintas
matizando o desencanto

nenhuma estrela no deserto


ilustração para o Livro das Mil e Uma Noites,
Luís Filipe de Abreu


concludente o vento
que de sonhos me
esvaziara a mão
nenhuma tâmara
para este coração
que se sabe beduíno
que o sol vive a crestar

entre dunas de solidão
o amor em mim é sede
indagando oásis
miragem a felicidade
que nunca pude tocar

sexta-feira

Sísifo à minha maneira


"Paisagem em Murnau", Wassily Kandinsky

um girassol contemplativo
acompanho a tarde desfeita
seus ritos de passagem
esperando das vagas o regresso
incerto de barcos e amores
reminiscências que se dissipam
nos moinhos de Khronos

não bastará da noite
o ricercare gotejando
volutas de estrelas
ante o que vi ficar invisível
o vazio que me atinge em cheio
não é azul nem vesperal
tem algo que beira o infinito
peso de uma ou mais eternidades

quarta-feira

quase uma ode a Dioniso


"Dioniso criança"

da manhã as tríades
clamavam por passos
perder-me ali seria
então celebrar a vida em
festejos de vinho e pão
um tácito sim dizer às
circunstâncias do vento
num ínterim de sol

pouco eu ambicionara
além da primavera
em lugar do silêncio
que se agigantava
matiz outro ao coração
propiciar
e um levante de asas
assim talvez permitisse
desvencilhar a teia
os nós da solidão

terça-feira

sem a intervenção de Homero


Claude Monet

barco vazio de presságios
eu sem deuses ou estrelas
tateava da tarde os enigmas
na travessia do outono
sem saber quanto tempo
o coração pode esperar

testemunharam por
mim vôos e gaivotas
eu perdera o horizonte
na confluência dos azuis
eu que não nasci Ulisses
e tanto quanto de amores
nunca soube do mar

o zodíaco de quando cheguei aqui


"Mãe e criança", Pablo Picasso

novembro anunciava
eclipses quando nasci
numa quarta-feira, manhã
de vinte e nove labirintos
certamente que um dia
roubado da primavera
de anjos que se ausentaram
ou de sol em desalinho

um instante de pássaros
endereçados ao nada
frágil gládio de velas com
o horizonte confrontado
tudo assim denunciado
nos arabescos do destino
e no azul não se desenhava
nenhum luminoso vaticínio

domingo

do céu que ainda restara


"Campo de trigo com ceifeiro e sol", Vincent van Gogh

albatroz clamei
sobre oceanos
sem burlar o avizinhar
de espectros
ritos meus não afugentaram
salteadores de estrelas

não detive o vento
com apelos de pétala
nem a lágrima reticente
impediu-me dos olhos
o transbordar
vazante da maré

restou abandonar a leste
os mapas de levantes
esquecer da lua o encalço
outros azuis tecer
percorrer trigais em
lugar da escuridão

o que me vai na algibeira


"O semeador", Vincent van Gogh

pouco depois que nasci
concedeu-me asas
um hierofante e
também o medo das alturas
com água, vento e fogo
foi sacramentada a
minha solidão

desse labirinto sépia que
é o ontem do meu tempo
às avessas palmilhado
restam cicatrizes no rosto
do coração ferido em ocasos
reminiscências de estrelas
pouco mais a ser levado

carrego comigo alguns
versos de memória
eu que me atenho ao
nexo das palavras
mão nenhuma presa à minha
e ainda a própria sombra
que ora se me esquiva
se foge de mim o sol

o tempo e seus anelos


"Jardim Florido", Vincent van Gogh

o calendário ansiava
a primavera
tempo era de libertar
a beleza da clausura
das torres do inverno

transposto o fosso
das estações
setembro que chegasse
entre cores levadiças
revivendo girassóis

cavaleiro andante
o sol delegou a mim
cultivar flores
sobrevindas
semeando poesia
pelo chão

rapsódias do fogo


"Mantiqueira", Henrique Coutinho

descuidado o sol
deixou a paisagem
incandescente
já que ainda acesas
suas brasas
em meio à turba de asas
que nas distâncias
submergia

ali na tarde eu via
um dos meus desatinos
em rapsódias que o
coração não cessava
sempre que ateadas
antepassadas feridas
exumar amores
lidar com fogueiras
adormecidas

sábado

sem as bençãos de Netuno


Claude Monet

pelos rochedos
estilhacei ondas
das aves orquestrei
a debandada
ungindo com o sol
mais de uma enseada

destinos ordenei
aos barcos
os ventos dispus
em quadrantes
à paisagem dei azuis
acrescidos de rompantes

no cais sonhei com quem
não e nunca me quis
enquanto o mar soçobrava
entre o amor e seus anis

antes fronteiriças que luminares


"Mesa em frente à janela", Pablo Picasso

seja a estrela ao horizonte
sobrepondo-se
nascente o dia ao leste
ou a pétala pelo vento
sequestrada
o que por elas entra ou
o que sai e vai embora
tudo faz delas liame
entre meu mundo e
o universo lá fora

as fronteiras da casa é
de lei que são as janelas
se por insone ou triste
ao certo não sei
não tenho visto sonhos
escapulindo por elas

sexta-feira

para quem faz tanger a minha lira




não vim das Plêiades
porém qual Mercúrio
trouxe minha lira
arauto que sou
de sete cordas
e se paro aqui não é tanto
pelo que corri alvissareiro
o orbe que num átimo
circunavegado

mas para com meu
capacete alado reverenciar
quem me impõe tão
célere o coração
e as sandálias minhas
também descalçaria
para tocar o mesmo chão
que recebe os teus pés

dos cortejos de Éolo


"Maison Maria", Paul Cézanne

de adestrar os ventos
então desisti
capitulando ante tão
imensuráveis rastros:
desalojadas as nuvens
janelas devassadas
a paisagem em desalinho

se impossível confiná-los
já que indômito o frenesi
melhor colher os frutos
do que percorre a rebeldia
eles transpondo meus recados
um destino dado à minha poesia

quinta-feira

muitos quadrantes depois


"Menina com barco", Pablo Picasso

quisera o teu amor
mas naves mercantes
desviaram nosso encontro
era outra a rota dos mares
no assinalado do mapa
do teu coração

mareante que pouco sabia
do teu império
para moeda de troca
eu guardava apenas
uma estrela
na palma da mão