domingo

saga entre palavras


"Olhando para o mar", Edward Potthast

horizonte em
que me ancoro
esta saga entre
palavras é o
que me resta
se no olhar me dói
a imensidão

azul que não
se pressente
é o amor este mar
que me é ausente
enseada sempre
a dizer não

sexta-feira

em meio às celebrações do vento


"Paisagem marinha, efeitos da noite"", Claude Monet

neste mar que é
a solidão
que me cerceia
releituras de
estrelas faço
circunstâncias do
inverno contemplo

e desde que nada
nada intento
palavras sobreponho
à dor que medra
em meio às celebrações
do vento

sábado

um amor que assim se revele


"Menina com boina vermelha", Pablo Picasso

espero um amor que
assim se revele
como ou feito o céu que
quando for estelar

que não seja palavra
arredia, criptografia
mas chão de aconchego
nunca revolto mar

e que norte seja de
azuis imensuráveis
um códice de asas traduzido
por manifestos do olhar

quinta-feira

meridianos


"Rebocando um barco em Honfleur", Claude Monet

se somente meridianos
de palavras navego
é por ser barco sem saber
como buscar outro cais

nesta rota a poesia é
o vento à revelia
mero leme, carta celeste
se tanto ou nada mais

sexta-feira

quando contemplas o mar


"Argentuil, fim de tarde", Claude Monet

para Graça Pires

penso em ti no que
da esplanada
contemplas o mar
exegeta desvendando
os vaticínios do vento

se alimentando de
imensidão
entre versos e preces
a nautas e gaivotas
enquanto te despedes
do sol extenuado

mas talvez somente
esperes das estrelas
a sutil chegada
quando serão tuas palavras
iluminuras pela noite
em pontos cardeais

e minha reverência
se torna indagação:
de onde vem a poesia tua
este cabedal de luz
que transbordas
na amplidão?

segunda-feira

entreato


"Ponte na Chuva", Vincent van Gogh

enquanto em legato
a chuva é entreato nos
quadrantes da solidão
eu que do amor tão só
conheço o exílio
revejo versos adiados

a felicidade dissidente
então rememoro
como a nostalgia entre
fotogramas semeada
legitimando o que se esvai
o que dói por não vivido

domingo

entre a palavra e existir


"Campo de trigo sob céu nublado", Vincent van Gogh

ao contrário de mim
que me perco entre paisagens
e escombros da memória
no encalço do azul as aves
têm o sul como promessa
de um melhor lugar

pois que não alço voos
tão só declino sonhos em
abismos cotidianos
eu nada célere e tão ocaso
num eterno gládio entre
a palavra e existir

sábado

desde então


"Canteiros de flores ", Vincent van Gogh

desde que em mim
adormeceram as canções
tão-somente solfejo
a métrica da solidão

pois que não tenho
das aves incertas
a desenvoltura
nem a amplidão
como um caminho

e não me recordo
com o que a brisa
me acenara
ausências desenho com
tintas esmaecidas

na estação sobrevinda
adentrarei maio
alguns tantos anseios
obliterados
e o amor mais ainda

domingo

pacto nenhum


"Nudez, folhas verdes e seios", Pablo Picasso

deixo que à deriva
minhas palavras
o silêncio atrelado ao
outono que incide

reminiscências navego
sendo este meu mar
como se gris a paisagem
do que me cabe findar

bastando não mais
que um e só um olhar
para adivinhar pacto
nenhum em mim

o amor assim sem lugar

sábado

entre azuis e jasmins


"O Jardim do Outono", Vincent van Gogh

neste adágio de abril
suave é a canção do outono
desenhando seus enleios
entre azuis e jasmins

tudo previsto de antemão:
a despedida das folhas
a dor fronteiriça, a nova estação
eu sem par seguindo assim

pois a solidão que me enreda
é mar que há muito me antecede
e a palavra que naufraga não
resgata em mim o coração

segunda-feira

contrapontos


"O improvisador", Emilio Pettoruti

enquanto sendo
sonata de silêncios
não mais detenho palavras
nem conto quantas vezes
em seus contrapontos
a vida me diz não

sem articular versos
coleciono amores
em preto e branco
o tempo tingindo de
sépia os sonhos
e o coração em mim

sexta-feira

caixa de música


"Clarinete e violino", Pablo Picasso

sem ressonâncias
de brisa ou
tardes de girassóis
meus versos quase
sempre têm a
clave da solidão

mas se entreaberto
meu coração
qual caixa de música
transbordo sutilezas
e minuetos
ao palavras entabular

o amor sendo chave
e passaporte para
todo possível sonhar

quinta-feira

elipses e bemóis



"Arlequin", Pablo Picasso


semibreves do vento
ou a matiz da manhã
nada me afaga a alma
e abandono palavras
por rimas de silêncios
elipses e bemóis

desdenhando sonhos
o outono antecipo
e assim circunscrevo
a atual estação
neste périplo sem asas
que é a solidão