domingo

entre o calendário e o horizonte


"Paisagem com neve", Vincent van Gogh

há muito que entardeci
diz a mim o rastro do tempo
ao redor qual for a estação
destoo das colagens da
primavera
sou esmorecer do outono
inverno não serei verão

cumes ou palavras, busco
o horizonte impossível
dos pássaros o refúgio
asa que me leve o coração

para além de dias, meses
degraus do calendário
neste cenário onde o amor
faz estribilho
eterno não em seu refrão

do que sobeja incessante


"Barcos de pesca no mar", Vincent van Gogh

navegante enquanto
eu for
serão palavras
meus navios
sem sóis ou faróis
repleto de solidão
meu mar

perdida a primavera
da rosa-dos-ventos
entre correntezas
e sextantes
sobejam desencantos
eu sitiado em minha
dor por desaguar

quinta-feira

das primícias da estação


"Mulher em frente ao espelho", Pablo Picasso

Para Kezia Domingues
mesmo circunavegando
por desertos
reconheço em você
festejos da brisa e
signos da primavera
que se desenha irisada
desde sua chegada

sol que sucede a chuva
em surdina
fresta que ilumina
toda e qualquer espera
pelo amor que não surgia
ao vir entre acordes e poesia
em voos de solfejar

sábado

dos compassos do silêncio


"Menina com o mandolin", Pablo Picasso

se quando percorro
tardes e entrelinhas
silêncios disponho em
lugar de palavras
estes lapsos na pauta
são respostas do
meu coração
que entristece

por saber o amor
sem semibreves
ou fugazes o sonho e o
instante da estrela
e recolho minhas asas
feito lira que
também anoitece

quarta-feira

por muitos quadrantes


"A praia de Sainte-Adresse", Claude Monet

se meus olhos velejam
por tanto desencanto
é porque sei meu coração
sem lugar para atracar

sobra-me tão pouco
quase nada a avistar
neste mar que percorro
sem nenhum alento

porém vez ou outra
arrisco um verso
e lanço a palavra minha
na órbita do vento

segunda-feira

Quixote entre moinhos desfeitos


"Dom Quixote", Salvador Dali

na tablatura deste
inverno que silencia
não encontro vestígios
de palavras minhas
se procuro sonhos
na paisagem

eu que regia os ventos
hoje indago esfinges
sobre onde estarão
meus moinhos
neste deserto que
tomou o meu olhar

quinta-feira

no silêncio do ocaso


"Paisagem com o castelo de Auvers no pôr do sol", Vincent van Gogh

à linguagem dos sinos somo
os contrapontos da luz
mesmo que vãos meus apelos
pois das asas o voo gestual
não me leva o desencanto

e eu que antes menestrel
agora entre reminiscências
adormeço palavras
meus sonhos revoam e
tudo fere a tarde em mim

quarta-feira

à sombra das águas


"Figuras na praia", Pablo Picasso

lanço âncora em
lugar de palavras
meu périplo resumo
a uma lira de silêncios
por dedilhar

aportado na solidão
meu coração é
apenas um barco
sem resposta
fazendo apelos ao mar

de claves e de partituras


"Os três músicos", Pablo Picasso

teço canções em
compassos
de moinhos de vento
e assim apascento
a solidão que
carrego comigo

mas se arcana me
foge a palavra
a dor solfeja e
promessa nenhuma
me oferece abrigo

sexta-feira

nas vagas da poesia


"Barcos", Arcângelo Ianelli

tempestade sejam ou
ainda que calmaria
trago contidas as palavras
à solicitude dos ventos
respondendo com um não

à deriva vai meu coração
brancos versos meus navios
que a dor faz soçobrar
mais oceanos e desertos
silenciando meu olhar

segunda-feira

não sendo tempo de aflorar


"Impressão, sol levante", Claude Monet

do prefácio ao fim
esculpe o outono em mim
o enredo desta manhã
eu em invernal solidão
pétala nenhuma ou amor
ao alcance da mão

gládio de sol e neblina
triste sina é constatar
que do meu coração ou
de seus quadrantes
nada venha a vicejar

terça-feira

do que vejo na paisagem


"Paisagem de outono com barcos", Vassili Kandinsky

assim percebo o outono
neste prólogo da estação
um palco para múltiplos
quintetos de aves
ou mesmo sem um único
gesto dos ventos
um cais de despedidas

nele aporto tristezas
eu que en passant entre
pétalas esquecidas

segunda-feira

do que assim me emudece


"Outono na Bavaria", Wassili Kandinsky

perdido que foi
o veio da poesia
já não garimpo versos
e sei fugazes desde a
palavra que não medra
aos rompantes do coração

ironia de bateia vazia
feito diamantes na
manhã encontro
vislumbres de orvalho
mais ausências do outono
e o amor sem floração

quarta-feira

entre as matizes da estação


"Paisagem de outono", Vincent van Gogh

de soslaio o coração nada
diz assim inconfesso
palavras enredadas nos
quadrantes do outono
verso nenhum se detendo
nos acenos de abril

conspirações do vento
tramam naufrágios
amarelecidos e quedos
são folhas meus sonhos
e uma dor sem intermezzo
eu sépia no azul da estação

segunda-feira

outono, rondó e fuga


" Paisagem em Saint Remy", Vincent van Gogh

a solidão afugenta
palavras em bando
e à deriva no silêncio
que cerceia versos
o exílio dos olhos não
encontra o sol em lugar
dos pássaros migrados

diferente do que
prometera a primavera
ou a estival estação
que agora em ruínas
meu coração declina
sem outro pressuposto
que bater desabitado

pois não regressa o amor
a lugar onde nunca
houvera ancorado

entre as águas sobrevindas


"Paisagem de Auvers depois da chuva", Vincent van Gogh

sem reminiscências do
azul que se exilara
tão somente o gris nos
domínios da paisagem
mais o deserto nas mãos
e no coração o silêncio
do que não medra

palavras não engendradas
onde o sol fora deposto
reinam acordes desferidos
pelo minueto da chuva
confundindo-me os olhos
desaguando arabescos
de sal e de solidão

terça-feira

num caminho que vai de Éolo a Chopin


"A noite estrelada", Vincent van Gogh

assim o pólen dos
sonhos
um contraponto ao
dia encerrado
fazendo da noite
lago constelado

eu que tudo contemplo
na solidão pereço
noturno é a música
do vento
ferindo-me num
arpejo lento

quinta-feira

nas brumas do que me falta


"Campo das papoulas", Vincent van Gogh

eu já tive nos olhos
o lume da estrela
mas adagio que não ouço
a felicidade de mim
não mais se avizinha

e agora não me bastam
o enlevo de brisa e palavra
ou presságios do outono
nesta tempestade sem
abrigo que é a solidão

e vão é mais um
dia terminado
dissonância na harmonia
da paisagem a luz em fuga
e o amor um cais
não encontrado

quarta-feira

quão concludente um ocaso possa ser


"Passeio ao crepúsculo", Vincent van Gogh


vai além do gestual de asas
a insígnia dos pássaros
para esse desamparo
que me atrela ao chão
e tênue é a fronteira dos azuis
nesse longe onde
o coração dispus

não é ária ou elegia
a dor que me confunde
está estampado assim
nos vitrais da tarde
o que eu sempre soube
não fosse meu destino
de nele nunca navegar

e mar claro seria o amor
ainda que apenas céu
sobre mim o firmamento

terça-feira

Cecília Meireles em mim


Cecília Meireles por Arpad Szenes

soçobram meus sonhos
assim como morrem
os meus navios
há muito não me reconheço do
lado de dentro do espelho
e sei que as minhas mãos
ambas se quebrariam
se o mar tocassem

por isso não me esqueço
nunca de você
quando vejo asas em
vôos rimados
ou mesmo a lua dispersa
e prometo ficar atento
aos motivos da rosa
se descuidado o vento
a despetalar

pois você, Cecília
umedece meus olhos
há muito empedrados
ante este mundo
por reinventar

sábado

ainda que poente o sol


"Semeador com pôr do sol", Vincent van Gogh

perspectivas ausentes
o que o coração procura
é um ponto de fuga na
arquitetura da tarde
e aplacado o sol em fúria
sinos sem falsete trazem
a sagração dos pássaros
e uma simples conclusão

seja nos jardins do Éden
ou mesmo neste labirinto
esta vertigem de sonhos
celeuma de asas e palavras
que denominamos vida
nada mais é que um avarandado
à espera do amor por visitante