quarta-feira

afroditas

(para Fernanda Pereira)

não quero a fêmea
moriblonde e silicupletada
que ostenta um falsolhar
lápis-lazzurro

eu privielogio o afrotraço
a negritez
o cabelo arrepixaim

terça-feira

minha Charlotte Rampling (blumenalva)















antes em sete
no quarto do flat
com quatro cores
o arco-íris se fez

azuis ocelares
ouro em fios
mais mucosas rosas
na branca tez da nudez

lacrimarum

não é isento de emoção
da rosa o despertar
amanhecendo em vermelhidão
mais que a cor de sangue
para quem quer que veja
estão nas pétalas que se abrem
pérolas que o orvalho lacrimeja


segunda-feira

blanc, rouge et rosé

não é mister pisotear
como às uvas as palavras
ou apressar-se para delas
extrair o melhor sumo
que em seu natural rumo
recende sutil bouquet

pois que difere a poesia
dos processos do vinho
na faina de sua obtenção
embora ambos embriaguem
e prestem-se à libação

que espere Baco então
repousem meus versos
nos tonéis do tempo
justo é o passar dos anos
aos que de melhor safra são

Bel na órbita de Saturno

um Ticianjo
nela algo havia
da alta renascença
fosse a alva pele
ou o tinto ouro fulvo
dos anelados fios

seria ela então
minha Vênus de Urbino
entre sons de lira
e poesia
assim um flecheiro
Cupido prometia

irrealizado,este amor
a outros somou-se
em crescente galeria

entrudesca

introitu da quaresma
em tétrade o número de dias
estabelece o samba
a cor do calendário

o ritmulato batuquebra
silêncios
reverberram cuícas
tudo ornamente:
foliondas, seres caricatos
públicas e enfeitadas vias
a dança entre serpentiras

sol e noite o país pára:
que espere o trabalho
a triunfal passagem do corso
o carnaval dá o tom à lira

domingo

folhetinesca ou pequeno portfólio de Nelson Rodrigues

óbitos ululantes
tricoloriam
o obscenário carioca

no álbum de família
bonitinhas e ordinávidas
vestidas de libidinoivas
selvagemiam no asfalto

ante o olho que
unilacrimejava
sete gatilhos:
quem incestuousaria
levantar o pano?

Abaporu

quão grande o pé no chão
e distante o cérebro
pequenino:
uma antropofigura
desnudescansa
sob o sol a pino

cores e traços deformatizam
intensifirma-se do humano ser
aguda visão
enquanto um cactostenta
o bioma da caatinga
em meio à azulidão

barroca (a tre)

o violinorteava
harpiscordes
e a sonata oboera

nauticarta ou pedindo os préstimos de Colombo

no oceano do amor
meu coração leviatange
naufrágios
sem direito a istmos
ou estreitos

e quando a paixão aventa
não há sextante
ou um só instante
que me livre da tormenta

ultrapassados os quarenta
haverá tempo para
um curso de genovegação?

em meio à precipitação da quarta-feira

gotas tamborilacrimejam
baça fica a vidraça
redesenhando um céu
que nimboscila e
trovoabre-se

mas sempre é tempo
de bonança
a esperança é a última
que se molha

fiquemos então
na expectativa dele
arcolorido a levitar
em sua chegada
espetacular


ms. Battle

pouco me importam
teus embates de
prima donna
lendários sejam ou não

exsultate, jubilate
bastam-me teus
schubertenidos e
mozartrinados
ou o sopranuance de
teus vôos de coloraltura

pois se teu canto
é leggero
em mim se fez eterno

ao setentrionorte do reino uníssono

escocena:
quem em saia
toca gaita de fôlego

Das Lied Von Der Erde

nada mais sei
que são canções
da terra
em indecifrável hieroglifala
germânica
em lírica trama orquestral

mas até ouvidos moucos
dirão que são
do belo a voz exata

então, Gustav Mahler
fica aqui o meu recado:
sua música, mais
que sublime
redime e salva

no chão da Via Láctea

meu horóscopo sagicentauro
dispara flechas ao infinito
inclina à filosofia e viagens
pelo que retrata o planisfério

talvez isso explique porque
mesmo caminhando
no provincenário
da minha sina proletária
eu mire estrelas na imensidão

taurus na paisagem

um sem número de horizontes
verde chão convexo
e entre eles situado o casario
de janelas de azul quadricular

eventuais cercados
diversa flora singular
reina alvo o solitouro
rubras aspas seu coroar


toque show

entre atablagues
bongordo Jô soava

Operários (ainda Tarsila)

no paulicenário
elevam-se arranha-sóis
e monólitos fabris
de hálito gris

tece seu fabulário
de credos e degredos
um clã de proletários:
como que pedra sobre pedra
rostos sobrepostos
sob bandeirantes azuis

mosaico de itinerantes
assim medra degrau a degrau
a pirâmide facial


palco Autran

clap, clap, clap
silencio aqui minha
onomatoplatéia

um deus dormiu aqui
e após o sopro do noroeste
o céu não pode esperar:
serão autores em busca
dos personagens Zeus

vai em paz, Paulo
quixotelo
jamais avaro em
seu talento
é findo o jogo

leva teu reinado Lear
a outros mundos
viajante do agora e sempre
e nunca mais caixeiro

antroxifopagia

sol cítrico e pictórrido
caricactus e bananeira
ciclope salta um
seio à dianteira

exacerbrada tudo
o que se diz forma
curvilinhas e espectro abrasacor
acasalado a lado, sem ornato
sui gêmeo o duo se mantém

e o que é de quem
pernas, pés, o próprio tato
se confunde e desafia
em civil estado de amalgamia


cadente

andarilha estrela
em seu propulsonho
não diz de que galáxia
é egressa
ou a que era remonta
seu pulsar primeiro

mas basta a mim sua beleza
de eternidade e instante
célere bólide errante
que se faz fugaz candeeiro

paulicena desgarrada (pré-metroviária)

outro jeito não trem:
quem não vai jaçanantes
das onze horas
adoniranda na garoa

Tarsila, sol permanente

amarelocêntrico
ecoa em semicírculos
um sol estilizalvo
que horizonta seu vôo
em tom primário

formalizam o cenário
despojamento, azul
verde e caricata flora
e de tão poente
esta tarde não demora


réplica ao oráculo ou conversando com meu fecho éclair

uma certa nonsensibilidade
permeia meus leitmotivos
meus tresvarios não
alcançam o além-mar
e o que intento nem
sempre se perfaz

outrossim assento
minhas palavras
feito tijolos em
babélica construção

Claude sobre telhas

tarde quase monetípica:
impressionuvens que
o sol leva avante
em pincelépidas

nenufaltam apenas
fêmeas no jardim

sábado

de Homero e de amores

dar ouvidos às sereias
custou-me uma odissérie
de naufrágios
do bater às portas do Hades
até a perda de Penélope

basta da fúria de Poseidon
a Atena peço agora um sono lótus
sou olho cego de ciclope
falta-me phsyque du rôle
para ser Ulisses neste mar

arcadian revival ou coisas de João Gilberto

o zéfiro do ar condicionado
desafina a minha lira

bossa in Rio (Rodrigo de Freitas hall)

registro de um cisnegrafista:
na beira da lagoa, gansolando
João marrecanta sincopato

eu, Portinari e os campos de arroz

semealto está o campo
na paisagem prosplena
a solidão
o sol mal se declara
não há asas de quem
espantocar:
tão-somente verde e
nunca vendaval

braços sobrestados
fica inanimóvel ele lá
rota escultura cinzelada
a óleo e pincel
crucifincado e mudo
em seu gólgota campesino
qual anônimo cristo
em meio ao arrozal


cânone estético para versejadores

escrever felizmente
não exige operações
de aritmétrica

basta ouvir a vida
mezzosoprar
e assoviar no mesmo tom

Luiz I, baião rex

o imperador do som do fole
tanto falava ao corpo que bole
quanto às almas em séquito
na cena da caatinga

sanfônico (em concertina)
narrava Gonzaga a saga
da sina nordestina

vendo através de Vincent

sob o azul constelado
do espaço
o Terraço Café:
garçon em pé
personagens e mesas
do anonimato
um casal que chega
em stacatto

pedras, janeluzes
um rumor de arvoredo
eis ali a Place du Forum
em meio às sombras
da silhueta citadina

e mais o amarelo
(chancela de quem
a tela assina)

dorivaneios

uma artesanave
oceanda
jangaderiva
e burlavento

Nove Bachianas Brasileiras ou tributo dissonante a Villa-Lobos

se a flautateia fagotecendo
o pianorteia e orquestraduz
preludizeres
aqui o que violoncela
bachianda
sopranoscula cantilendas

arte afromarcial

da capoeira a roda
é humana mandala
onde ao centro em duo
se gingolpeia e dança
e quem o arame tange
tudo berimbala

eternamente Pessoa

guardador de
livros e rebanhos
quantos foste não sei
tão incerta é esta
matemática

mas ouço em mim
o eco de tua lira
erma e arcana
e o que a palavra
tua alardeia
no meu peito corre rio
e vira aldeia

futeballet (ou Robson de Souza em momento solo)

pedalépido e driblefando
ensaia sua coreografila
pás de valse, plié, pás de deux
ultrapassando a ziguezaga
triunfante, enfant

gatogravura

elegance é sua
primordial felinuance
mesmo que isso soe
e soa mesmo siamesmice

ele que tailandescende
elasticoleia o corpo
ton sur ton marrom
em seu siaesmo ronrondar
olha bleu e desafia

na libidança (ao notivagar)
não canta em dó ou ré: mia

partitura ou um aforismo incontestável

qual um maço
de dinheiro
um acorde é feito
de notas empilhadas

oiticíclica

membro da rupturma
Hélio oiticinde com
a arte emoldourada
exposiciona, performaliza
parangoleva cores
feito barco-íris
decretraçando o fim
da limitela


carnavalsa


"Pierrô, Arlequim e Colombina", Di Cavalcanti

você não colombina
comigo
impávida ela me diz

o entrudo desmarcha:
fico eu pierroto
como nunca arlequis

pondo fim à secessão

sonho nós num
beijo Klimt
mosaicobertos e
envoltos ambos
de paixão

ao mesmo tempo
terno e suntuousado
o sentimento é
conquanto bizantípico
se suceda o que vai
ao derredor

seja então você
minha Emilie
pois embora mais
antigo que nouveau
qual ouro brilha o amor
em amareluz

écloga urbana

faltam-me a lira
o cajado
e ainda até o augúrio
da esperança
para compor uma
página campesina

bucolilóquios a me arrebanhar
sei também que
balidos não me obtêm
os préstimos de Caieiro

porém o que fazer
quando Fernando ressoa
se a poesia é em mim
uma récita intempestiva?


fenicius rave

um rioscila em seu reentorno
correnteima pela dublireland
babeliqueffeyto em wordegraus
giordanas brumas
tuto quanto circula e pulabelle
não cria vinco cosmonogâmico
Desdren que Adam fremme Eve

catedral do Bom Jesus

um par de torres
sino, arcos e vitrais
mais descompasso
de relógios
arrulhos de pombos
e fiéis por alvejar

ah, e a escadaria
que ao contrário do altar
alberga sem cobrar

marinha

onde sobrevão gaivoltas
o sol soslaiva sal anil

ali já naufragatas
agora a água onzula:
movimento (mar é)

panegírico ocasional a Pablo Ruiz Picasso

estridências de cores
traços primevos
Pablo faunonírico conjura
monstruousadias
iconografando o
mítico, a metáfora

geometrizando, decompondo
sua arte eleva ao
cubo, surrealiza
blasfema e dilacera

a uma quadra dali, Salvador

la plus belle fleur de mon jardin
é de um girassólido amarelão
nem Vincente em seus devangogh
em tela a igualaria
mas meu verso não Rimbaud

justificando Takata (Autumm efeitos)

nada têm em comum
um girassol e um mandolino
unidos assim feito
morta natureza
embora possam ambos
um jardim enfeitar

um com seu ouro
exuberamplo
amarelorbitando
astro-rei a procurar
o outro bojo e cordas
musicompartilhando
renascenas
notas pelo vento
(tempo) a ecoar

Normarilyn Jean

Marilyn blonde angel
tem este tributo
décadas de atraso
mas o amor não tem
prazo para acontecer

nós, ambos estamos sós
você lendária entre lençóis
eu ante fotogramas
em preto & branco paginados
reverenciando a nua
revelação

sim, Norma Jean
só muitos sóis após
os dias da criação
veio enfim a perfeição
que Deus quis
ao conceber seu sorriso estelar
ao delinear os seus quadris