3 de junho de 2008

funâmbulo na linha do Equador







"A Musa", de Pablo Picasso

a inspiração vem
a galope (Pégaso)
ou parte sem preâmbulos
incerto é seu tempo
de ir ou de chegar

uma arte o versejar
equilibrar palavras no
gume da navalha
conquanto sejam
elas fugidias
mesmo estando na
palma da nossa mão

music box












"Bailarina", de Andrew Atroshenko

têm surpresas
as caixas de música
em sua mecânica
e precisão

que o digam dedos
e corda
após em calculada
e maquinal luta
esgrimir:

quando não berceuse
uma chacona que se
soma à bailarina
no espelho a refletir

homem ao mar






"La pointe de la Heve, Sainte-adresse", de Claude Monet


é o poeta a ostra
sem o nácar iridescente
transmutando a dor
em pérola reluzente

2 de junho de 2008

Vulcano hodierno












"Vulcano forjando os raios de Júpiter", de Pierre Paul Rubens

bigorna, martelo
frágua e fole
golpeio frases
como cabe
a quem se pretende
um artesão

a poesia, forjo-a
em silêncio
quando a palavra
incandesce
e abrasa a emoção

pescando com Tarsila








"O Pescador", de Tarsila do Amaral



o horizonte em serra
litorâneos verdes e anis
ovaladas copas, casas sem
arquitetônica ousadia
e com a sétupla altivez coqueira
contrasta una a bananeira

pelo exercício do ofício
vem ao pescador enredada
a recompensa
e no reinado de Netuno
do peixe configura-se a captura
após azul espreita

27 de maio de 2008

minha Charlotte Rampling













"Retrato de Marie-Thérèse", de Pablo Picasso

antes em sete
no quarto do flat
com quatro cores
o arco-íris se fez

azuis ocelares
ouro em fios
mais mucosas rosas
na branca tez da nudez

lacrimarum











"Campo com papoulas", de Vincent van Gogh

não é isento de emoção
da flor o despertar
amanhecendo em vermelhidão

mais que a cor de sangue
para quem quer que veja
estão nas pétalas que se abrem
pérolas que o orvalho lacrimeja

26 de maio de 2008

blanc, rouge et rosé











"Natureza morta com pote, garrafa, copos e frutas", de Paul Cezanne

não é mister pisotear
como as uvas as palavras
ou apressar-se para delas
extrair o melhor sumo
que em seu natural rumo
recende sutil bouquet

pois que difere a poesia
dos processos do vinho
na faina de sua obtenção
embora ambos embriaguem
após sua maturação

que espere Baco então
repousem meus versos
nos tonéis do tempo
justo é o passar dos anos
aos que de melhor safra são

25 de maio de 2008

Abaporu














"Abaporu", de Tarsila do Amaral

quão grande o pé no chão
e distante o cérebro
pequenino:
uma antropofigura
desnudescansa
sob o sol a pino

cores e traços deformatizam
intensifirma-se do humano ser
aguda visão
enquanto um cactostenta
o bioma da caatinga
em meio à azulidão

barroca (a tre)












"O violino com café", de Pablo Picasso

o violinorteava
harpiscordes
e a sonata oboera

nauticarta ou pedindo os préstimos de Colombo









"Paisagem em Saintes Maries de la Mer", deVincent van Gogh


no oceano do amor
meu coração leviatange
naufrágios
sem direito a istmos
ou estreitos

e quando a paixão aventa
não há sextante
ou um só instante
que me livre da tormenta

ultrapassados os cinquenta
haverá tempo para
um curso de genovegação?

ao setentrionorte do reino uníssono










"Tocador de flauta dupla e nu", de Pablo Picasso

escocena:
quem em saia
toca gaita de fôlego

Das Lied Von Der Erde












"Gustav Mahler", de Emil Orlik


nada mais sei
que são canções
da terra
em indecifrável hieroglífica
fala germânica
em lírica trama orquestral

mas até ouvidos moucos
dirão que são
do belo a voz exata

então, Gustav Mahler
fica aqui o meu recado:
sua música, mais
que sublime
redime e salva

taurus na paisagem











"Paisagem com Touro", de Tarsila do Amaral


um sem número de horizontes
verde chão convexo
e entre eles situado o casario
de janelas de azul quadricular

eventuais cercados
diversa flora singular
reina alvo o solitouro
rubras aspas seu coroar

Operários (ainda Tarsila)










"Operários", de Tarsila do Amaral

no paulicenário
elevam-se arranha-sóis
e monólitos fabris
de hálito gris

tece seu fabulário
de credos e degredos
um clã de proletários:
como que pedra sobre pedra
rostos sobrepostos
sob azuis bandeirantes

mosaico de itinerantes
assim medra degrau a degrau
a pirâmide facial

Paulo Autran














"Théâtre Molière Sainte Roulette", de Pablo Picasso

clap, clap, clap
silencio aqui minha
onomatoplateia

um deus dormiu aqui
e após o sopro do noroeste
o céu não pode esperar:
serão autores em busca
dos personagens, Zeus

vai em paz, Paulo
quixotelo
jamais avaro em
seu talento
é findo o jogo

leva teu reinado Lear
a outros mundos
viajante do agora e sempre
e nunca mais caixeiro

antroxifopagia










"Antropofagia", de Tarsila do Amaral


sol cítrico e pictórrido
caricactus e bananeira
ciclope salta um
seio à dianteira

exacerbrada tudo
o que se diz forma
curvilinhas e espectro abrasacor
acasalado a lado, sem ornato
sui gêmeo o duo se mantém

e o que é de quem
pernas, pés, o próprio tato
se confunde e desafia
em civil estado de amalgamia

paulicena desgarrada (pré-metroviária)










"Gare Saint-Lazare", de Claude Monet

outro jeito não trem:
quem não vai jaçanantes
das onze horas
adoniranda na garoa

Tarsila, sol permanente










"Sol Poente", de Tarsila do Amaral


amarelocêntrico
ecoa em semicírculos
um sol estilizalvo
que horizonta seu voo
em tom primário

formalizam o cenário
despojamento, azul
verde e caricata flora
e de tão poente
esta tarde não demora

24 de maio de 2008

de Homero e de amores













"Ulysses e as sereias", de Pablo Picasso

dar ouvidos às sereias
custou-me uma odissérie
de naufrágios
do bater às portas do Hades
até a perda de Penélope

basta da fúria de Poseidon
a Atena peço agora um sono lótus
sou olho cego de ciclope
falta-me physique du rôle
para ser Ulisses neste mar