24 de maio de 2014

impossível como a luz












"Um grupo de casas de campo", Vincent van Gogh

tateio o ocaso entre
meneios de aves e
dobres de sinos
sem  promessa
de horizontes

como se em mim
ecoasse um  lamento
brônzeo em sarabanda
adivinhando a noite
em meio à revoada

como se a felicidade
fosse a tarde
em derrocada
escassa e impossível
como a luz

18 de maio de 2014

o índigo e o gris















"A colina de Montmartre", Vincent van Gogh

se me esqueço menestrel
é por não mais saber em
meu mosaico de passos
onde se envereda a luz

como que dando adeus
à tarde e às palavras
me faço fugidio e errante
num levante de silêncios

onde o coração se divide
entre o índigo e o gris
do amor e seus ardis

1 de maio de 2014

a dor que não se finda
















"Barcos no porto de Honfleur", Claude Monet

no que escrevo assim
à surdina, me esmero
em pouco desvelar
do meu coração cifrado
para quase nada dele
então segredar

recorro a barcos ou a
um imaginário mar
mas  tudo me deslinda
as palavras dissimuladas  
os versos consumados
a dor que não se finda

20 de abril de 2014

a esmo num mesmo mar

"Três barcos de pesca", Claude Monet

meridianos atravesso
sem viver ou navegar
seguindo sem horizontes 
a esmo num mesmo mar

sem avistar do amor a
terra firme, leme perdido
por nas tempestades
tanto ter me ancorado

por ter em mim tatuado
indelével como um não
este naufrágio em silêncio
que é a solidão

2 de abril de 2014

pronuncio tristesse



















"O pássaro na gaiola", Pablo Picasso

inerte de amores
o coração segue em
staccato e a vida em
andamento lento

pronuncio tristesse
pois nada define
melhor este momento

de palavras em viés
e indecifráveis postulados
do vento