quarta-feira

entre as matizes da estação


"Paisagem de outono", Vincent van Gogh

de soslaio o coração nada
diz assim inconfesso
palavras enredadas nos
quadrantes do outono
verso nenhum se detendo
nos acenos de abril

conspirações do vento
tramam naufrágios
amarelecidos e quedos
são folhas meus sonhos
e uma dor sem intermezzo
eu sépia no azul da estação

segunda-feira

outono, rondó e fuga


" Paisagem em Saint Remy", Vincent van Gogh

a solidão afugenta
palavras em bando
e à deriva no silêncio
que cerceia versos
o exílio dos olhos não
encontra o sol em lugar
dos pássaros migrados

diferente do que
prometera a primavera
ou a estival estação
que agora em ruínas
meu coração declina
sem outro pressuposto
que bater desabitado

pois não regressa o amor
a lugar onde nunca
houvera ancorado

entre as águas sobrevindas


"Paisagem de Auvers depois da chuva", Vincent van Gogh

sem reminiscências do
azul que se exilara
tão somente o gris nos
domínios da paisagem
mais o deserto nas mãos
e no coração o silêncio
do que não medra

palavras não engendradas
onde o sol fora deposto
reinam acordes desferidos
pelo minueto da chuva
confundindo-me os olhos
desaguando arabescos
de sal e de solidão