sexta-feira

tão ímpar a semeadura










 


"Noite estrelada sobre  o Ródano", Vincent van Gogh

se o brilho ou devaneios
não sei o que as agrupa em
tríades ou constelações

mas impossível contá-las
estrela por estrela em
luminosas multidões

assim da noite a tessitura
fértil chão o firmamento
tão  ímpar a semeadura

quinta-feira

se desenho moinhos



"Monmartre, moinhos e horta", Vincent van Gogh

não me confundo se
desenho moinhos
pois que os prefiro
às catedrais
a liturgia dos ventos
sendo poesia
 
as pás em movimento
os sacros rituais
e quixotes sacerdotes
sendo a mim tão iguais

terça-feira

o mar que está fora do lugar



 Aquarela de Henrique Coutinho

nele são outras  as tormentas
entre o inesperado dos nimbos
e o tempo a ondular
somente esse o azul que
meus olhos singram
que em vão sem asas ou velas
as montanhas tentam tocar

em Minas o céu é o mar
que está fora do lugar

sábado

pois assim me consente o azul




"Regata em Argentuil", Claude Monet
 
eu que tão avesso a
marítimas empreitadas
na solidão desenho naus
oceanos esboço entre
rimas e naufrágios

e se não adivinho marés
continentes então vislumbro
pois assim me consente o
azul contínuo do sonhar

à espera de poder bradar
anelo que não é segredo
da terra nova  a conquista
o grito do amor à vista

sendo o pão a poesia



"Campo de trigo", Vincent van Gogh

o que é esse enigma
nada me assegura
pois que tanto me fere
conquanto me cura

e dele me alimento
mesmo  se  feito vento
só assim se pronuncia

pois  que em mim
a palavra se faz trigo
sendo o pão a poesia