15 de agosto de 2008

quadruplicando Ubatuba


"Ubatuba quatro vistas", Carlos Herglotz

uma azul janela
vidraça para o tempo
poderiam ali estar
quatro estações
ou do dia quatro estágios
mas é outro o adagio
pois que barcos em procissão
flora, céu e litoral

povoado de sol e sal
casas e casas de então
uma matriz igreja
a capela amarela
da fé abrigos que são
mais a serra que festeja
o tão presente mar:
apenas quatro cantos de Ubatuba
se outros tantos por mirar

Minas naif


"Minha querida Minas Gerais", Carlos Herglotz

tão breve o vilarejo
dessa Minas panorâmica
onde tudo é primavera
já que de flores feito o chão

ali aos céus sobe a igreja
da serra os azuis também vão
cores outras constroem o casario
na terra segue solta a criação

escutar se pode ou o que é
trote, sinos ou mesmo passos
entre silêncios tantos do cenário
certamente que lá ainda se reza
e a beleza impõe o breviário

oráculos, pitonisas e oceanos


"O mar em Saintes Maries de la Mer", Vincent van Gogh

diz uma atenta leitura
das estrelas
sibilas vaticinam
que deste mar serei
atestam-no o que fora velejado
e tormentas percebidas
porque do amor nada sei

a solidão, suas águas
este destino nas areias
da mão vincado
o coração soçobrado
em vagas azuis morrerei

13 de agosto de 2008

de continentes perdidos


"O navio de escravos", John Wiliam Turner

com suas linhas de sal
machucou meu rosto
o tempo ido
mais do que faria o sol
se eu zarpado vida adentro

aferrei-me à terra
no medo ancorado
navegando não vislumbradas
enseadas
perdido foi o encalço dos ventos

quando o mar olha-me sem fim
pergunto-me como pude ser
tanto, tão náufrago de mim

10 de agosto de 2008

um poste nas cercanias do imaginário

 
"Poste", Henrique Coutinho 

verde o campo de degredos
muralhas em azul redor
ali onde não há o mar
imensurável é o silêncio
que remói sem cessar

estática qual totem
de um poste a solitude
sustenta fios e sinais
de outrora

gris a cor dos vaticínios:
galopam nimbos
a chuva não demora

após o nascimento ao leste


"Manhã", Henrique Coutinho

recolhidas estrelas
emaranhados da
noite desatados
para a floresta encantada
o sol promulga rituais

da manhã nada se ouve
nem das nuvens irisadas
e nascente entre a neblina
a luz perfaz
da serrania e de seus picos
monumentos, catedrais

sobre a estação que se avizinha














"Paisagem: o parque Monceau", de Claude Monet

perdoe-me agosto
do calendário aguardo
setembro
os solfejos da primavera
itinerários de tardes e
poesia
sem mais todavia

índigos, azuis
as demais cores
o inverno que finda
a ausência das flores
obliterada
minhas dores mais ainda

9 de agosto de 2008

em Santo Antônio do Pinhal


"Pinheiros do Brejo", Henrique Coutinho

entre pinheiros
a entardecena solar
se dilui, se esparge
um pincel rege
elementos
pigmentos de outono
de luz e de água

uma síntese de
sutileveza
onde tudo com a beleza
se atrela:
o que era prerrogativa
da natureza
passa então a ser aquarela

3 de agosto de 2008

além da semeadura


"Arrozal", Henrique Coutinho

num piscar de pálpebras
piscianos olhos de devaneios
levam em aquarela à tela
quadricalculados hectares
de verdes arrozais

notório é que por eles
sóis e ventos passaram
onde hoje rumo de pincéis
só não se sabe se beleza
ou alimento
o que ali germina mais

olhando lírios no campus


"Lírios", Vincent van Gogh

nem tecelões
nem fiandeiros
florescem os lírios
como sendo cientes
de que de sua beleza
o império é vão

teares à parte
não sabem nem
nunca souberam
quem fora o
rei Salomão

2 de agosto de 2008

da poesia de arcas e ilhas














"Orpheus", de Paul Duqueylard

                                 Para Alexandre Bonafim



tua é a palavra 
constelada
teus os solstícios
anjos, oceanos
e presságios
azuis todos e trigais

também é tua a lira
que tange outonos
e eternidades
do amor coadjuvando
tardes, impérios
cópulas e madrigais

urbano Orfeu
de primaveras e moinhos
nas adjacências do
verso teu
orbita e viceja o sol

27 de julho de 2008

entre cirros, gigas e allemandes










                                                 "Paisagem sob um céu de tempestade", Vincent van Gogh


como que tirados
de um alaúde
versos quero
repletos de música
meu coração barroco
neles estampado

mais o vento, seus
bemóis
para adiante levá-los
entre mosaicos
de nuvens
pouco mais que
além disso

mesmo que o sol
se esquive
ou o azul se
faça omisso

de sul a norte o caminho se perfaz









"A estrada de Vétheuil, efeito de neve", Claude Monet 



sem delongas ou adeus
disperso-as assim
palavras, gelosia afora
ainda que na invernada

périplo pelos campos
para encetar a jornada
elas que são do
coração meu os ais

depois que singrem no vento
em silente permuta
e venham a mim novos
pontos cardeais

24 de julho de 2008

pelo fogo acorrentado













"O suplício de Prometeu", Jean-Louis-Cesar Lair

não vou afogar
num etílico oceano
o repisar da sina de
amores malogrados
posto que à paixão
intrínsecos são
o cambalear, a queda
o permanecer alucinado
a dor que destila

então eu, Prometeu atormentado
destarte salvo o fígado
mas pela eternidade fica
o coração dilacerado

20 de julho de 2008

antes que se apague












"Natureza morta com vela", de Pablo Picasso

contemplo seu átimo
que é (e me) chama
funâmbulo o lume
na ponta do pavio
qual inflada vela em
cume de navio

ímpeto ígneo que
oscila e remonta
a destinos do vento
é como o existir em
cada momento, rito

e nada tira a beleza
mesmo do que de antemão
sabemos finito

10 de julho de 2008

rumo ao sol do sul









"Campo coberto de neve com uma grade" de Vincent van Gogh


vão elas tão belas
as aves peregrinas
em sua orquestral formação
que talvez pássaros não sejam
mas anjos sim
e se de seis asas
serão serafins

9 de julho de 2008

romântica (joycíclica)










"Montes de feno ao nascer da lua", de Vincent van Gogh"

a plenilua já foi 
minguanova
e quartocrescheia


6 de julho de 2008

flights and beehives








"O parque Monceau", de Claude Monet



proletária ela
zumbelha
entre o que verdeja
asas em faina
de pouso e voar
amarelambendo a flor
insinuando vislumbres
de favo e mel

8 de junho de 2008

Graciliano














Retrato de Graciliano Ramos, Cândido Portinari

em tuas linhas
nunca tortas
mais que o agreste
ou a odisséia no sertão
teus cenários são
a humana condição

que está na ambição
pela terra
no cárcere da seca
no semear da fome
no desterro nordestino
na aridez da existência
palmilhada sob o sol a pino

neste panorama de letras
áspero e despojado
qual a caatinga
a beleza ainda vinga
seja numa cadela magrela
em celas da ditadura ou na
agrura por um periquito

e em meio às ossadas
angústias e seres
beirando o precipício
lapidar palavras
foi o teu ofício

3 de junho de 2008

como se fora Stradivarius









"Antonio Stradivari", de Edgar Bundy

nobre madeira
a da poesia
que merecedora se faz
do entalhe preciso
de quem cumpre
ser um artesão

uma vez luthier
entre palavras
mais que cravelhas
ou cordas
a ela dou o timbre
que melhor traduz
a emoção